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Sexta-feira, Março 25, 2005

 

Gaucholândia

Pois com relação à polêmica (sim, ela existe) relacionada à Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo (pra quem não sabe, mandei pra Tânia Rösing, organizadora da Jornada, uma carta aberta me queixando da falta de autores gaúchos. Ela subiu nas tamancas, xingou os repórteres que a procuraram e não me respondeu), alguém me fez um comentário. Por que eu queria autores gaúchos na Jornada? Não sou eu que luto contra a idéia de uma tal literatura gaúcha?
É, sou.
Pois me meti nesta nhenha com esta senhora só por amor ao debate. Acho que a gente, os gaúchos, viviam tendo de provar para o mundo que eram grandinhos, que a produção local era bacana, que a sombra do regionalismo passou e deixou de nos assombrar. Durante tempos, a gente ficou que nem aquela criança que quer mostrar pra mãe que já sabe fazer coisa de adulto, olha só, São Paulo, olha só, Rio de Janeiro, aqui tem gente que cria histórias, com personagens, cenários, coisital. Era que nem mostrar que a gente sabia andar de bicicleta sem usar as mãos. Uma façanha. (E que fique bem claro: o que a gente queria era ser lido pelo resto do Brasil, catzo.)
Não sei, faço parte da turma há apenas 10 anos, mas acho que a história de nós, como escritores de verdade, começou na Oficina do Assis, que reúne quase 500 alunos egressos, cujos vínculos não se diluem assim no mais. Quando a gente finalmente solidificou um sistema literário, que se caracteriza, acima de tudo, por um ambiente bom, com interlocução saudável e gente torcendo a favor dos iniciantes, parece que um caranguejo do balde vem e puxa todo mundo pra baixo. É isso.
Se dona Tânia faz um showzão em Passo Fundo, ninguém tem nada a ver com isso. Mas é um espetáculo bancado com grana da gente. E trazendo só gente de fora, do exterior, com estrelas do eixo. E nosso pessoal, os autores que estão remando contra a corrente, não vão a Passo Fundo.
Tem gente que nunca foi a Passo Fundo. Tem gente que foi a Passo Fundo pra dar curso disso e daquilo e pôde falar pruns 10 carinhas no máximo. Tem gente que foi a Passo Fundo para conversar com os leitores mirins e pôde se manisfestar por 15 minutos, que as crianças tinham outras atividades. Tem gente que foi a Passo Fundo pra ficar babando ovo de estrela. Tem autor gaúcho que até foi convidado, mas teve de aturar a aterrissagem de um político, que ficou falando do umbigo dele e como era legal o partido dele e que ainda cantou Bob Dylan pra uma platéia que não tinha mais como ajeitar a bunda na cadeira.
Com a grana dispendida com um figurão, dona Tânia levava, por baixo, 5 ou 6 autores gaúchos pra falar com seus leitores, incluindo toda a comunidade passo-fundense, que merecia participar do evento (a inscrição é paga, e o número de vagas, limitado). Esses autores poderiam vender seus livros lá, promover o trabalho que estão fazendo, botar uns pilas no bolso e ajudar a solidificar o sistema.
Mas não acontece nada disso. A Tânia, nuns achaques de provincianismo, acha que espetáculo só se faz com gente de fora.
Mas não é de se irritar?


Comentários:
É de se irritar, sim! Assino embaixo.
 
Cintia
é inaceitável ter que engolir provincianismo!!!!!!!! seguir a lógica de que a " grama do vizinho é mais verdinha" é um puta desreipeito não com toda essa gente boa que temos por aqui mad com todos nós gaúchos.
um beijo
Flávia
 
Obrigada pelo apoio, Tailor e Flávia. A gente conversa e se entende. Não é legal ser assim?
Beijos!
 
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