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Quarta-feira, Março 23, 2005
Jornada de Passo Fundo: onde estão os gaúchos?
Pois deu bafão. Ontem, terça-feira, chegou emílio aqui na telinha anunciando que a programação da Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo, organizada e dirigida pela professora Tânia Rösing, já estava pronta. Fui lá ver e, putz!, no meio de mais de 100 autores nacionais e estrangeiros, tinha uns poucos gaúchos (o Moacyr Scliar, o Ricardo Silvestrin, O Carlos Urbim, a Regina Zilberman, o Mário Pirata) e estamos conversados. Achei uma sacanagem, ainda mais que está virando tradição excluir autores gaúchos da Jornada. Para que o pessoal que não mora aqui no Estado entenda, é como fazer um evento em São Paulo e não convidar os autores paulistas. Ou como se a Flip não convidasse autores brasileiros. Enviei uma carta aberta, e bem aberta, à Tânia, com cópia prum monte de gente. Tá aqui a carta: Tânia, com alegria redobrada recebi notícias da programação da Jornada deste ano. Mais uma vez, é uma satisfação saber que Passo Fundo acolhe a literatura. Uma só coisa me causa estranheza, coisa que já te comentei uma vez e que acho que vale a pena voltar a comentar: os autores gaúchos não estão na programação. Nada contra diretamente. Mas me sinto no direito de fazer objeção e de tentar mais uma vez alertar sobre a grande lacuna que tal ausência pode deixar. Talvez por questões bairristas, talvez por apego a uma literatura que parece surgir para o restante do país somente agora, creio que nossos autores (repara o pronome possessivo. Um pouco mais, e fundo um CTG literário) deveriam dizer presente. Há anos lutamos pelo reconhecimento da literatura produzida aqui, que sempre foi vista pelo restante do país como de iniciantes, coisa feita por uma gente que vive nos cafundós e que toma chimarrão nos finais de tarde, depois de amarrar o pingo na frente de casa. Sempre quisemos, quer na direção do Instituto Estadual do Livro, quer como jornalistas da área cultural, que nossos autores fossem reconhecidos como autores de peso que são, cuja produção merecia ser vista e apreciada. Queriamos furar o tal bloqueio do eixo Rio-São Paulo, que parecia monopolizar a literatura dita de qualidade feita no Brasil. Queríamos que deixassem de nos considerar os autores de uma literatura datada e marcada por um certo tom regional. Queríamos que, mais do que uma literatura gaúcha (existe isso?), nossos autores pudessem angariar o mesmo prestígio de autores cuja certidão de nascimento foi expedida em outros lugares deste país. Conseguimos. Não estamos mais de cueiros, tampouco de gatinhas. Um verdadeiro fenômeno editorial, sem precedentes, ocorreu no ano passado, quando as grandes editoras nacionais, como a Record, a Objetiva e a Companhia das Letras começaram a publicar autores gaúchos. Com isso, passamos de autores regionais a autores nacionais, e nossa literatura é vista e aplaudida no restante do país. Nem cito meu caso particular, sem dúvida o mais modesto de todos, mas lembro de autores como Claudia Tajes, David Coimbra, Liberato Vieira da Cunha, Amilcar Bettega Barbosa, Michel Laub, Fabricio Carpinejar, Marcelo Carneiro da Cunha, Luiz Paulo Faccioli, Carlos Moraes, Charles Kiefer, Tabajara Ruas, Leticia Wierzchowski, Daniel Galera, Daniel Pellizzari, entre vários outros, que ganharam notoriedade no centro do país. Não são mais "autores gaúchos", no sentido pejorativo que o termo possa ter. São autores que estavam insulados e esquecidos, vivendo num outro universo cultural que, não por acaso, fazia parte da imensa e festejada variedade do mosaico verde-amarelo. Dado a lamentar, nenhum deles está na programação da Jornada. São autores que freqüentam eventos como as Bienais de Rio e São Paulo, os encontros patrocinados por grandes bancos, como o Itaú, a Festa Literária Interncional de Parati, os salões de livros europeus. Não que a Jornada perca notoriedade e importância sem esses autores. Mas perdem os autores gaúchos de se encontrarem e confraternizarem com seus pares de outras regiões, naqueles saudáveis encontros que, fugindo do bairrismo, conseguem mapear a produção nacional, respeitando as particularidades locais. Num evento que tem patrocínio e apoio do Governo do Estado do Rio Grande do Sul, da Lei de Incentivo à Cultura, que capta recursos junto às empresas gaúchas, os autores gaúchos estão presentes em número minguado. Moacyr Scliar, José Antônio Pinheiro Machado, Sérgio Capparelli e Regina Zilberman, que são, exceção feita aos professores de literatura, os autores gaúchos de maior peso na Jornada, diluem-se entre os mais de 100 autores nacionais e estrangeiros presentes. Tudo isso num ano em que o homenageado é Erico Verissimo e no qual o tema da Jornada é Diversidade Cultural: o Diálogo das Diferenças. E num ano em que a Jornada, como diz o texto de apresentação, tenta favorecer a integração, "um olhar lançado sobre a realidade caleidoscópica em que se constitui a multiplicidade dos povos deve constituir-se como uma linha de unidade no contexto da diversidade. Somos todos intelecto, afetividade, emoção, espiritualidade". A Jornada, infelizmente, volta a reprisar a mesma falta verificada em suas edições anteriores, nas quais se chancelou a vinda de autores de peso, a esmagadora maioria deles de outras regiões do país. Como organizadora da Jornada, estou segura de que te preocupas com a representatividade e com a multiplicidade de visões. Também estou segura de que Passo Fundo quer fazer bastante mais do que um espetáculo: Passo Fundo quer a valorização da literatura, quer fomentar a leitura, quer formar leitores, quer dar incentivo a quem mora aqui, produz aqui e faz questão de dizer que é daqui. Os mesmos autores que, trabalhando naquilo que amam, dão a Passo Fundo o estofo para realizar um evento grandioso em nome das letras. Peço que penses e ponderes. Creio que esta mensagem pode servir como o início de uma saudável discussão. Saudações literárias, Cíntia Moscovich Escritora e jornalista
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