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Sábado, Março 26, 2005

 

Tomar no cu

Sábado, dito de aleluia, acordei com alguma dificuldade depois da noitada de ontem, festa de aniversário da Roberta Maestri, uma das proprietárias da Torta de Sorvete. Risotos maravilhosos, cerveja com marguerita de acompanhamento. Um arraso.
Me fui comprar uns vasos e terras e mais adubo para arrumar as plantinhas de casa. Gosto do momento agrícola este, mas quase nunca me dou ao direito. No caminho, fiquei pensando no caso da Tânia Rösing, irritada com o pensamento constante que me tem assediado, a irritação com a prepotência dessa senhora. Me lembrei de uma historinha, que passo a contar, como exemplo de que as coisas podem, e devem, ser bem diferentes.

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No longínquo ano de 1995, eu cursava a Oficina de Criação Literária da PUCRS, ministrada pelo escritor Luiz Antonio de Assis Brasil. Se hoje eu sei alguma coisa, e pouco sei, foi por obra daquelas aulas miraculosas, deleite puro. Em algumas tardes, depois da aula, o Assis, um gentleman, me dava o prazer da companhia dele. Eu, novata, fascinada com a literatura, queria ouvir o que ele tinha a me dizer e enchia o mestre de perguntas. E ele, naquela placidez que lhe é peculiar, me contava histórias, de como tinha escrito isso e aquilo, de como tinha sido a viagem para falar aos leitores de um lugar e outro, de como as coisas se operavam na vida dele. Apesar da brutal diferença de bagagem e da discreta diferença de idade (ele é uns 12 anos mais velho do que eu. Mas é sábio como se tivesse uns 90 a mais), a gente se tornou amigo. Amigo assim, no duro, de rir junto, de contar coisas escabrosas, de se acompanhar. Era bom, e até hoje me sinto privilegiada com a amizade dele e da Valesca, a mulher dele, outra criatura adorável.
Pois numa dessas conversas, eu me acostumando à candura do meu amigo, o Assis -- que sempre acreditou que eu ia ter uma boa carreira como escritora --- vaticinou algo que eu julgava e julgo impossível: "Tu vais ver, um dia vais ganhar o prêmio Casa de Las Américas". Ri muito dele, que insistiu no assunto. E insistiu, porque ele queria que eu também acreditasse que eu podia ser uma escritora. E insistiu naquilo. Tanto. que eu, constrangida, tive uma única reação:
--- Ah, Assis, pára com isso. Vai tomar no teu cu.
Ele caiu numa saborosa gargalhada. E riu, riu, riu, e me disse que só eu mesmo podia dizer uma coisa daquelas.
No caminho, de volta para casa, eu relembrava do diálogo. E, claro, me lembrei de mim mandando aquele senhor, um escritor maduro, um homem de educação e gosto refinado, tomar no cu. Fiquei mortalmente constrangida, quis que o tempo voltasse para eu corrigir o desaforo, queria me enterrar de vergonha. Por quem, afinal, eu estava tomando o Assis, por um de meus amigos que estão acostumados com minha veia de boquirrota?
Em casa, comentei o caso com o Luiz Paulo (meu marido, pra quem não sabe). O Luiz Paulo ponderou que aquilo não era coisa que se fizesse, o Assis era um homem civilizado, não era um dos amigos que são obrigados a ficar ouvindo horrores da minha boca, que eu fosse pedir desculpas com urgência.
Corri ao computador e escrevi uma mensagem, caprichada nas gramáticas e nos léxicos da vida, com o pedido de desculpas mais constrangido da minha vida.
Uns 15 minutos depois, veio a resposta à minha mensagem.
Na resposta, que eu abri de pronto, o Assis me afirmava que nunca, em tempo algum, se sentiu ofendido ou desrespeitado com meu destempero verbal e que eu não tinha nada do que me desculpar. Pelo contrário, ele se sentia muito bem, porque se eu tive tal grau de intimidade com ele, é porque o queria de coração e que respeito não tinha a ver com aquele tipo de besteira. E disse que a pior coisa que ele enfrentava era o tratamento cerimonioso que as pessoas dedicavam a ele, essa perda de naturalidade que sempre ele sentiu ao tratar com quem quer que fosse. Finalizava a mensagem pedindo que eu fizesse o favor de nunca tira dele o sagrado direito de ser tratado como trato qualquer outra pessoa. E que o mandasse tomar em qualquer lugar, desde que eu sentisse que era isso mesmo que eu queria dizer.
Fiquei ali, basbaque. E compreendi que as pessoas são iguais na vida. Algumas são melhores porque dão liberdade a outras. E mais passei a respeitar aquele de quem já era fã de carteirinha.
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Pergunta que não quer calar: se o Assis, que é o Asiss, nunca se sentiu superior a ninguém, se sempre quis ser tratado como igual pelas pessoas, por que a Tânia Rösing se acha mais e melhor do que quem quer dela uma singela resposta a uma pergunta?


Comentários:
Que legal esta história. Revela muito da personalidade do escritor e da escritora, um veterano, outra, iniciante. Para usar um termo caro á Cíntia, pura civilidade. Dona Tânia tinha que aprender.
 
tu parecia eu quando fazia a oficina! só que, bom, eu tinha 17 anos!
mas, mesmo assim: tadinho do assis. ele tem que agüentar cada uma, de cada uma. já cometi tanta gafe com ele, e é isso mesmo: assis é gentleman, tão gentleman que supera essas vulgaridadesinhas, não julga ninguém por elas, até acha bonito.
um dia, um dia eu ainda vou aprender a ser elevada e tranqüila com ele.
 
Oi, Maria Luíza. Pois é, a gente tem de aprender com o mestre amado. E com 19 ou com 90, tudo é a mesma coisa. Uma dúvida atrás da outra, menina. Nunca muda.
 
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