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Quinta-feira, Maio 19, 2005

 

Bienal e o alface expurgado

Daqui a poquinho saio pro Rio. Bienal, debate com a Ivana Arruda Leite sobre traição. Momento de rever amigos, de acompanhar Luís Ruffato e Paulinha Taitelbaum no lançamento de +30 Mulheres que estão fazendo a nova literatura..., volume que ele está organizando. E de ver o Max, a Dindi, a Lívia, a Rosa Amanda, a Luciana...
Vou ser feliz, afinal.
Antes de sair, deixo aqui um texto que escrevi e que não foi aproveitado pela revista Aplauso, conforme comentei num post aqui mesmo. Vítima de atentado contra a liberdade de expressão, dama que anda sendo tratada a pontapés, o texto não vai ser mesmo usado pra nada, apesar de o jornalista da revista ter-me persuadido a escrevê-lo. Ele, o texto, seria acompanhado por outro texto, de uma senhora, minha suposta oponente, que não quis que se publicasse o que ela tinha a dizer --- e que nunca disse. A publicação de meu artigo ficou pra depois, empurrado com a barriga. Agora, o jornalista me informa que uma alentada matéria sobre eventos literários não vai mais sair, tá difícil, que a coisa não foi bem assim como eu pinto.
Fiquei assim, de cara, porque o jornalista era um dos bravos da nossa imprensa, um cara que baixa o pau e malha gente quando acha que deve fazer tal cousa. Claro, quando se trata do emprego dele, tudo muda. Eu não posso acusar ninguém por estar garantindo o leite das crianças. Só um pouqunho de coerência, isso o que a gente queria. Ele foi coagido a baixar a crista e baixou. Quem diria.
Se o leitor entendeu até aqui, melhor.
E explico uma partezinha da croniqueta que segue: quando falo de eventos que pretendem fomentar a literatura e que, no entanto, "não são para vender livros", falo "daquele" evento e de uma frase dita ao presidente da república pela organizadora mandona da cousa
O texto que não saiu foi o que segue. Serve para se refletir sobre a atividade de escrita. Eu acho.

O expurgo do pé de alface

Beto, um guri de seus 14 anos, me escreveu, por correio eletrônico, dizendo que um volume de contos de minha autoria tinha sido objeto de estudo em seu colégio. Como a prova se aproximava, ele foi direto: confessou que não tinha lido meu livro. Precisava de um "resumozinho" dos contos para não ser reprovado.
Despachei o Beto com uma bronca. E com um tema de casa: que ele entendesse que me pedia para lhe dar a única coisa que eu tinha para vender.
Eventos literários — como as feiras e salões do livro realizados no Estado e no país — servem para coisas essenciais, todas interligadas, todas partes do chamado sistema literário (o que diria o mestre Antonio Candido?). Além de fomentar o hábito da leitura, os citados encontros propiciam a sempre bem-vinda troca de idéias entre leitores, escritores, editores, livreiros e quem mais chegar. São atividades que, resguardadas as proporções, ajudam a legitimar o trabalho do escritor, que, apesar de ser o miolo do tal sistema literário, precisa de contínua revalidação — ou alguém pensa que o Beto pediria a um médico uma consulta de graça?
Mais do que conceder um alvará de funcionamento ou uma carteira de identidade de escritor ou, ainda, incentivar o amor aos livros, os encontros literários sinalizam o desejo da sociedade, que quer que o escritor trabalhe e que tenha crédito mínimo. Esse papel, o de confirmação da crença na leitura e da confiança no papel do autor, não pode ser ultrapassado na marra — exceto pela figura do leitor, que tem o transcendente arbítrio sobre o texto. Quando um evento literário prescinde da figura do autor — de qualquer autor —, que é o eixo do sistema ao qual o evento literário se encaixa e do qual necessita, tudo perde o sentido. Em nome da nobreza, o evento literário passa a existir como um fim em si mesmo. Coisa para inglês ver.
As coisas podem ser piores. Se, como anda em moda, se realiza um evento que encarna o incentivo à leitura e que, por outra parte, faz questão de ressaltar que "não é para vender livros", algo está torto. É a quinquilharia preconceituosa em ação: o abstrato do processo criativo não pode ser remunerado sem que se cometa um crime hediondo. Mister é ler; vender livros, nem tanto. É como se houvesse uma feira agropecuária à qual criadores de gado não comparecessem, sendo desaconselhada a venda de bois. Ou, melhor, uma feira de hortifrutigrangeiros, da qual os plantadores de alface, e os pés de alface, fossem expurgados.
Salvo maioria de exceções honrosas, os eventos literários têm dado as costas às manifestações dos escritores — alcançando o êxtase na adoração do própria causa, se arvorando no papel de pauteiros e censores dos meios de comunicação, dão de ombros ao papel do autor dentro do sistema. Até que esta situação seja corrigida, literatura continua a ser circo, a venda de livros é desaconselhada e a profissão de escritor só tem equivalente no pé de alface expurgado.
Piores notícias: daqui por diante, ninguém mais segura o Beto.


Comentários:
concordo com vc, parece mesmo haver um esquecimento do homem por tras da obra. infelizmente!
 
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Oi, Luisandro. Pois é, sempre tem um autor que é de osso e carne, meu querido. Beijo pra ti!
 
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