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Sexta-feira, Julho 15, 2005

 

A cabeleira da casa

Nunca morei em casa, sempre morei em apartamento. Me criei com gente morando embaixo e em cima, me casei e fui fazer o tal futuro num apartamento. Aliás, dois.
Quis o destino que, por forças de plano cruzado e o escambau, eu viesse dar com os costados na casa em que moro. Casa provecta, de década de 30, dessas rentes à calçada. com janelas de postigos. Casa de família, que o pai comprou de oportunidade, para construir um prédio. O pai morreu antes de poder construir alguma coisa, e a casa era alugada para clínicas de dermatologia, de psicologia e, por último, para uma creche, a Criança Feliz.
Quando a gente veio pra cá, tudo fedia a mijo, a casa num abandono de dono que dava dó. A gente reformou o que deu, não muito. Depois de 15 anos, nova reforma. A casa pintada de azul. O telhado, velho viveiro de musgos, ficou intocado. Alguém falou pra gente lavar ou pintar. A gente não fez nada. Sempre achei que era bonito o telhado com sua umidade de décadas de chuva, com seus fungos brotando entre as fendas: o tempo, aquele que passa sem a gente querer, e o tempo, aquele dos fenêmenos da natureza, ambos dão uma solenidade boa e aconchegante àquilo que alguns consideram velharia e sujeira.
Hoje, limpando os respingos de tinta na calçada, depois de ter de pintar uma das paredes que foi pichada por um guri que não tem pai, tive estranha conversa com uma senhora que vinha passear com seus cachorrinhos. Ela falou:
-- Como ficou bonita a casa depois da reforma.
Eu, que estava de quatro escovando o chão com solvente, dei volta com a cabeça e agradeci a simpatia. Ela, no entanto, não se conteve:
-- Só não entendi por que não pintaram o telhado.
Eu pensei, pensei, pensei. Respondi:
-- É que o telhado é a cabeleira da casa, que é uma senhora já de idade.
Ela, sendo puxada pelos cachorrinhos, que não estavam a fim de conversa, fez cara de quem não entendeu. Eu esclareci:
-- Acho que a gente deve respeitar os cabelos brancos de uma pessoa de idade, a senhora não acha?
Ela olhou para mim, olhou para o telhado, olhou para os cachorros: pensava. Daí fez um ar sério, de quem conclui com grande seriedade sobre os fatos da vida:
-- É.
E foi embora. Vi quando, antes de dobrar a esquina, ela parou e olhou para trás, para o alto, para o telhado. Passou os dedos entre os cabelos, ajeitou um dos brincos. E tomou seu rumo, com uma dignidade de dar inveja.


Comentários:
Descobri que vc é boa. :)
Lindo seu post.
Leila (a leitora mediana do blog do Marcelino)
 
Oi, Leila. Que bom que vieste por aqui. Bem-vinda. Senta aí e toma um mate comigo. Descobri que tem uma fofa no blog do Marcelino.
Beijo da
Cíntia
 
Desde que seja, como diz meu barbeiro em relação a mim, Cíntia, uma cabeleira arrumada, está tudo certo!
 
" Minha religião são os telhados"(carpinejar)
beijo,
Flávia
 
Tá certo, meu caro Amadeus-Mozart. É um cabelo bem arrumadinho, sim, moço.
E obrigada pela citação do Carpinejar, Flávia. Bem linda.
Beijocas em todos,
Cíntia
 
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