Hoje fui fazer cabelo. Dar um upgrade na auto-estima, que anda meio em baixa. Fui lá com a Andréa Santana, da Sexton, que me entende a cabeça e a alma, e falei pra ela que meu cabelo estava horrível, com os brancos dando o ar da graça, o que era pintado virado numa coisa desbotada. Para dar mais ênfase a minha queixa, comparei:
--- Me sinto uma funcionária pública.
Uma senhora, que estava por perto, pulou na jugular: como assim, o que tens contra o funcionalismo?
Eu pedi calma. E expliquei que me sentia uma funcionária pública no sentido de, sei lá, aquelas mulheres que têm de esperar o salário no fim do mês para poder pintar os cabelos. Mas daquela funcionária pública que anda de calça fusô e blusão de lá, com sapatinho de salto meio altinho, unhas vermelhas, anéis de ouro, tomando cafezinho. Ela até que entendeu, ou fez que entendeu. É que não me entendi muito bem.
Além de me sentir vigiada, porque existe uma patrulha de politicamente corretos que é uma abominação, também quis saber de mim mesma o que eu tenho contra os funcionários públicos.
Ué, virando e mexendo, não tenho nada contra quem ganha seu dinheirinho com o suor do rosto. Mas é que eu acho que funcionário público não sua. Não sua, porque não se mexe. Não se mexe, porque não tem o que perder. Por que tantas criaturas se alinham para as provas de qualquer concurso público? Quem na vida sonhou em ser gari ou oficial de justiça? Quem tem fantasias de ficar carimbando documentos numa repartição ou num banco?
O negócio é esse, eu acho, de entrar para o corpo do Estado para ter uma vida garantida, com tempo presumível para fazer o que se gosta (que pode ser jogar canastra ou ficar na frente da tv), com direito a aposentadoria integral.
Eu nunca me habilitei a um serviço público. Idiota de mim, pensando bem.
Mil vezes idiota.
Mas, afinal, o cabelo voltou para casa revigorado. Eu e ele, o cabelo, vamos enfrentar a batalha de expediente em tempo integral. Vamos escrever.
Alguém aí é funcionário público? Algo contra ou a favor?