Alguém pichou com tinta podre e com rabiscos fedidos a placidez do muro azul de minha casa. O cara que fez isso, um menino, decerto, tem ódio. Não tem ódio de mim, que ele não me conhece, que moro numa casa longe do lugar onde ele mora. Ele odeia meu bairro. Pior: ele odeia a planície calma de um muro azul. O sujeito não se agüentou de ódio, odiando a lisura honesta de uma parede azul.
O que meu muro fez contra o menino? O que pode um muro fazer de mal a alguém?
Nada. O cara odeia tudo, e pichou meu muro.
O melhor é que meu muro não odeia ele. Meu muro não odeia ninguém e suporta a sujeira.
Pensando bem, meu muro tem grande senso de humor.
Acredito que as coisas ditas com humor são mais convincentes. Escrever com soda cáustica na ponta dos dedos, regurgitar um ácido queimante, encharcar de bile o texto?
Pra quê?
Para ser igual a todo o mundo, que o ódio é matéria universal. Qualquer imbecil odeia. Quando o texto ri dele mesmo, quando sorri da miséria do leitor e do pobre do autor, matéria da mesma matéria, afugenta-se o ridículo.
Só os imbecis não têm sentido de humor.
Ainda o assunto da matéria de Veja. Na boa, não precisava tanto ódio no texto. Faltou senso de humor para dizer. Com humor, é mais convincente. E menos chato.
O muro da minha casa é mais esperto que todos nós juntos.
Peguei tinta e pincel. Forrei o chão com jornal. Devagar fui tirando do muro o que não era muro. Ele, o muro, deixou que eu fizesse o curativo bem quietinho, parado, se ajeitando ao pincel. Confiava em mim, o muro.
Quando eu acabei, a ferida do muro tinha curado.
Mais fácil curar ferida de ódio em muro que em gente.