De repente, começou, tudo ao mesmo tempo: de norte a sul, escritores se queixam da pindaíba em que vivem. Já ouvi neguinho dizendo que tem de pegar dinheiro emprestado pra completar o mês. Um é funcionário público, outro é tradutor, outro é jornalista, e por aí vamos, profissões que não enriquecem ninguém, que dão o mínimo que se precisa.
O que ninguém quer é deixar de escrever. Impressionante: não mata a fome, não dá dinheiro, mas ninguém abre mão.
Talvez porque seja fascinante, porque o mundo vira mais mundo quando se escreve. O Salman Rushdie, que deu entrevista no Metrópolis (onde o Marcelino Freire fez matéria sobre Paraty, ótima, por sinal), enfrentou um jornalista que perguntava a ele se a ameaça de morte que pairou anos sobre sua dele cabeça não o atemorizou. Ele respondeu que não, que estava tão ocupado escrevendo que não tinha tempo de se preocupar com a sentença de aniquilamento.
Vejam bem, senhores: a literatura derruba até o medo.
Toma!