A crônica, linda, aí de baixo, foi enviada pelo Ruy Carlos Ostermann, o Professor. Dá pra entender o sentimento dele, não dá.
Vejam que bonito.
Não tenho mais ilusões, ao menos não tenho mais as ilusões que me faziam saltar de pára-quedas, meter-me em pesca submarina, participar do grupo de resgate da plataforma da Petrobras ou namorar a Michelle Pfeiffer.Romper a linha do sono e ficar lendo até amanhecer, com anotações pertinentes por cima da letra impressa, corrigindo a frase de Sartre, certamente errada, escrita às pressas, entre um uísque ou outro, no Café de Flore, com a Simone apressada, de pé, já na calçada.Fazer o cruzeiro do Mediterrâneo bebendo absinto, me apaixonando por Istambul e ficando por lá como professor de artes marciais ou tradutor do francês, mantendo correspondência com Umberto Eco a respeito de alguma coisa que ele possa se interessar.Ou então não fazer nada e ficar quieto no fundo da biblioteca desamarrando livro velho para futura restauração com páginas especiais, a maioria delas guardadas debaixo do Houaiss, gastar todo o tempo nisso, sem pressa, sem celular, ou qualquer outro tipo de angústia cotidiana.Para nada disso tenho mais ilusões de que possa fazer sem a intervenção enérgica ou insistente dos outros, os que me servem de paisagem afetiva, e arrumam a mesa, puxam o tapete lentamente, e me chamam para ler outra vez o jornal, alguma coisa que não li ou não quis ler porque eles sempre me parecem cada vez mais iguais.É bem esse tipo de ilusão que não tenho mais. Dá pra entender?