Desde quando eu era deste tamanhinho, bem pequeninha, eu queria ser escritora. Não queria ser outra coisa, se me perguntassem, e tampouco sabia dizer o motivo. Mas eu queria escrever. Não só escrever: queria viver disso.
Quis o destino que muito tarde eu concretizasse meu sonho: muita coisa aconteceu e eu não pude me dedicar ao que gostaria de fazer. Precisava cumprir o lado prático da existência, viver, tentar me assentar no mundo feito gente. Dei aula, fui comerciante, assessora de imprensa, revisora, desempregada — uma coisa angustiada, que não sabia pra onde ir nem como ganhar a vida. Uma coisa eu tinha feito, e isso aos 25 anos: me casei. O cara trabalhava em banco: eu ainda fazia a faculdade de letras. A de jornalismo, eu tinha conseguido terminar. Mas ainda queria ser escritora. Só que não sabia como se fazia. Daí eu fazia poesia nas horas vagas.
Aos 35 anos, eu era uma poeta horrível. E minha família achava que o folclore de ser escritora era até bacana — na casa dos outros. Por essa época, busquei a prosa. E nela, na prosa, encontrei aquilo que desde sempre buscava: uma maneira de ser escritora. Joguei meus poemas no fundo de uma gaveta e comecei uma nova forma de escrita. Quando dava, com o tempo que sobrava. Apesar de todas as coisas. Minha família sempre achou uma bobagem, coisa de lunático, de gente pouco prática. Me lembro de uma reunião familiar especialmente cruel, na qual minha mãe e minha tia caíram na minha cabeça, rá, rá, rá, ela quer ser escritora e vai ganhar dinheiro como, a lunática? Eu tinha mais era que buscar uma carreira, ganhar uns pilas, ter filhos, cuidar da casa e, com o tempo, cuidar de minha mãe e do meu marido — nessa ordem. Meu marido nã precisa que cuidem dele, mas o ideal familiar era esse.
Hoje eu sou uma escritora. E fico pasma que isso tenha acontecido.
Incrível que, quando se cumpre um sonho, a gente custe tanto para acreditar.
Vou tomar cerveja com uns amigos, comer alguma coisa e jogar conversa fora. Agora, eu tenho direito. Dane-se todo o resto.
Agora, eu não acredito mais em destino.