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Sábado, Agosto 27, 2005

 

Escrito nas estrelas

Desde quando eu era deste tamanhinho, bem pequeninha, eu queria ser escritora. Não queria ser outra coisa, se me perguntassem, e tampouco sabia dizer o motivo. Mas eu queria escrever. Não só escrever: queria viver disso.
Quis o destino que muito tarde eu concretizasse meu sonho: muita coisa aconteceu e eu não pude me dedicar ao que gostaria de fazer. Precisava cumprir o lado prático da existência, viver, tentar me assentar no mundo feito gente. Dei aula, fui comerciante, assessora de imprensa, revisora, desempregada — uma coisa angustiada, que não sabia pra onde ir nem como ganhar a vida. Uma coisa eu tinha feito, e isso aos 25 anos: me casei. O cara trabalhava em banco: eu ainda fazia a faculdade de letras. A de jornalismo, eu tinha conseguido terminar. Mas ainda queria ser escritora. Só que não sabia como se fazia. Daí eu fazia poesia nas horas vagas.
Aos 35 anos, eu era uma poeta horrível. E minha família achava que o folclore de ser escritora era até bacana — na casa dos outros. Por essa época, busquei a prosa. E nela, na prosa, encontrei aquilo que desde sempre buscava: uma maneira de ser escritora. Joguei meus poemas no fundo de uma gaveta e comecei uma nova forma de escrita. Quando dava, com o tempo que sobrava. Apesar de todas as coisas. Minha família sempre achou uma bobagem, coisa de lunático, de gente pouco prática. Me lembro de uma reunião familiar especialmente cruel, na qual minha mãe e minha tia caíram na minha cabeça, rá, rá, rá, ela quer ser escritora e vai ganhar dinheiro como, a lunática? Eu tinha mais era que buscar uma carreira, ganhar uns pilas, ter filhos, cuidar da casa e, com o tempo, cuidar de minha mãe e do meu marido — nessa ordem. Meu marido nã precisa que cuidem dele, mas o ideal familiar era esse.
Hoje eu sou uma escritora. E fico pasma que isso tenha acontecido.
Incrível que, quando se cumpre um sonho, a gente custe tanto para acreditar.
Vou tomar cerveja com uns amigos, comer alguma coisa e jogar conversa fora. Agora, eu tenho direito. Dane-se todo o resto.
Agora, eu não acredito mais em destino.


Comentários:
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E por sinal muito boa. Falo pelo Anotações durante um incêndio. E o depoimento resumido de sua trajetória me faz mais ainda acreditar em mim... Um abraço!
 
Olá, caro Amadeus-Mozart. Obrigada pela visita e pelo comentário. Foi um desabafo, na verdade.
Beijos!
 
Cíntia, mais que um desabafo, mostras tua força e garra, pois o talento sempre foi teu parceiro.
beijo do fernando
 
Cíntia, mais que um desabafo, mostras tua força e garra, pois o talento sempre foi teu parceiro.
beijo do fernando
 
Oi, Fernando. Foi, sim, um desabafo. O melhor de tudo é que tem gente como tu por perto. Acreditar fica muito mais fácil. Beijo!
 
Não sou um escritor, mas aspirante ainda. Me indentifiquei com que escreveu. Não sei se tenho dom da escrita, mas gosto de escrever e ponto final.
Caso tenha tempo, viste o meu blog
 
Oi, Eduardo. Que bom que tens esse gosto e esse prazer. Já é meio caminho andado, né?
 
Olá, é realmente desalentador quando a família não acredita em nossos sonhos. Mas deixa para lá, o que importa é a realização dele.
Abraço, Cristina.
 
Cintia, querida,

Às vezes, o destino leva toda uma vida para acontecer...

Beijos,

Denise
 
Parabéns!

Beijos do CC.
 
Áqueles que eu não tinha agradecido, fica aqui meu agradecimento, portanto, e meu beijo mais sincero. Mil obrigadas,
´Cíntia
 
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