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Quinta-feira, Agosto 18, 2005

 

Herança

A memória de um povo é a herança de um povo. Nós nos lembramos.
Leio que a retirada dos judeus assentados na Faixa de Gaza, já em sua fase final, provocou mortos e feridos. Os últimos judeus, ortodoxos, refugiaram-se em sinagogas, recusando-se a deixar suas casas. Soldados israelenses, que ontem se recusaram a invadir as sinagogas, hoje tiveram de abordar os templos e retirar à força, ainda que desarmados, os judeus que ainda resistiam. A maioria se entregou pacificamente.
Um judeu, retirado de sua casa, que fica ao lado da casa de sua cunhada, fustigou o soldado israelense responsável pela operação:
--- Vá lá, soldado, invada a casa dela. Pode, inclusive, violentá-la. Você deve ter ordens para isso.
O soldado sentou no chão e chorou. Ele se lembrou.

********
Depois de toda a violência, todo o descalabro, todos os homens-bomba, o que vai acontecer? O impensável, que era Israel devolver os territórios ocupados, aconteceu. O impossível é que os palestinos cumpram sua parte no acordo. O impossível tem que acontecer.


Comentários:
Ei, moça, parabéns pelo Portugal Telecom. Bom saber também que anda me visitando. Besitos.
 
Dificil mesmo foi explicar pras minhas bruguelinhas todas as cenas que a tv exibia sem pudor...É dificl para elas entenderem como alguém pode disputar o mesmo espaço, e não aprender a dividi-lo...Resta sonhar que o impossível aconteça.
 
bacaníssimo o comentário. memória É identidade na cultura judaica. somos aquilo de que nos lembramos -- e do que nos esquecemos.
abraço.
 
Sinceramente nao entendo por que seria tao impensavel alguém devolver algo que nao lhe pertencia. Eles moravam em enclaves protegidas pelo exército, uma continua provocaçao para a maioria palestina. Sera que deixar aquelas casas indenizados com dinheiro e a garantia de poder ir morar em lugares menos perigosos é tao terrivel assim? Lembro-lhe que a grande maioria dos palestinos nao é terrorista, e que, hoje em dia, a situaçao pior é a deles.
 
Patty,
teu raciocínio tem a lógica meio torta de quem não entendeu direito o que lê e quais são os fatos a que se refere o autor naquilo que está escrito. Impensável seria Israel se retirar de Gaza, porque sempre houve resistência, como se sabe, e porque haveria confrontos, como se viu. Gaza pertencia, à época da Guerra dos Seis Dias, ao Egito, e a colonização da área foi a maneira de assegurar a posse do novo território. Essas criaturas moravam lá, lá era a casa delas -- um lugar que elas pensavam delas. Tirar alguém de sua casa, quem quer que seja, é doloroso. Deverias saber, mesmo que sob a guarda do exército, mesmo baseado numa crença esboroada e radical. Os palestinos, que somam, na área, mais de um milhão de almas, ultrapassam os oito MIL judeus que lá moravam. Tinham de sair, sim ou sim. Agora: quero ver, realmente, os palestinos acabarem com a sanha de matar e matar. Aquilo que começou com Arafat, uma causa palestina, não tolera o Estado de Israel. Não se pensa em viver lado a lado. Impossível é, em suma, que os palestinos parem de se explodir. E que reconheçam a soberania do Estado judaico. É claro que não são todos terroristas. Mas se um deles comete um atentado, são os palestinos os culpados. Eles deveriam saber. Quero ver é viver em paz. Israel está aprendendo na base do tapa. Como os terroristas vão aprender?
 
Oi, Santiago. Legal apareceres por aqui. Brigada pela visita.
Mani e Anônimo: pois é isso aí. As crianças têm justa razão de ficar perplexas. A gente deveria ensinar a elas, e não elas a nós. E como a gente pode saber quem é se não sabe de onde veio?
Um beijo procês.
 
Veja Cintia,
eu nao ofendi ninguém e nao me parece que a minha seja uma logica meio torta. Para mim nao era impensavel que Israel um dia se retirasse de Gaza, achei justo que, hoje em dia que é o mais forte, começasse a dar sinais de abertura para com as exigencias dos palestinos. O terrorismo se combate com a justiça e fazendo com que as pessoas tenham esperança no futuro. Eu continuo pensando que a maioria dos palestinos seja gente como eu e voce e que se um é terrorista nao sao os palestinos os culpados. Ou deveria pensar, com essa logica, que o judeu que matou quatro palestinos inermes nos dias da retirada, faça com que os israelenses sejam os culpados.
Comprei aquela antologia Sex 'n' bossa (antes que voce falasse dela e esperando que o nome fosse apenas um chamariz). Ainda nao li porque tenho um monte de livros para ler antes, mas li A gramatica dos erros numa antologia de escritores brasileiro e gostei muito da estoria e do seu estilo (que aprecio no seu blog também). Vi o romance inteiro "Duas iguais" numa livraria portuguesa online, voce sabe se foi "traduzido" para o portugues de Portugal? Ja esta na minha lista de compras, apesar de que o frete para a Italia é um pouco caro.
Desculpe pelos erros, sou autodidata em portugues, e pelo tom se pareceu mais polemico do que eu quisesse.
 
Patty, o tom de teu comentário soou polêmico como é polêmica a matéria. Mas, acima de tudo, me encanta e causa admiração que sejas autodidata em português --- há brasileiros, muitos, milhares (inclusive das classes ditas ilustradas), que não escrevem com tua clareza. O que quero que compreendas é o seguinte: depois de tudo o que aconteceu, em milênios (não são mais séculos) de perseguição e maldades com o povo judeu, chegar a nosso tempo e ver um judeu contra um judeu é a maior ironia histórica que alguém poderia presenciar. Israel foi criado, ao menos em tese, para salvaguardar o direito à existência dos judeus. Um confronto de tal natureza nesta suposta Canaã faz com que se lembre de tudo o que aconteceu.
Escrevendo o que escrevi, é claro que corria o risco de ser tachada como mais uma chorona judia: ouço muito dizer que os judeus só falam no sofrimento que passaram, que têm o monopólio da dor no mundo. Acho, inclusive, que essa lembrança, que beira a mania, é uma chatice, se queres saber. A maior herança do povo judeu não é a lembrança da dor, mas a lembrança da dor através do humor tão peculiar. Mas, mal ou bem, quis me referir a essa ironia, extrema e dolorosa.
Os palestinos não são todos terroristas, os judeus não são todos bonzinhos. No estado de coisas atual, no entanto, os palestinos têm de saber que o ato de um só terrorista pode comprometer a causa inteira. Um só atentado, e toda a construção vem abaixo. Sharon, que era ídolo da direita e que virou herói da esquerda, saberá bem capitalizar a insânia de um único homem-bomba. E terá o apoio da opinião mundial. Não se fala mais de fracos e fortes: se fala em espertos e estúpidos.
Vale lembrar que Arafat criou o ideário palestino baseado no ódio. Ódio, ódio, ódio. Estive em Israel, procurei conversar com vários palestinos, e só tive isso, essa onda de ódio, que é a maior maluquice que pude ver. Maluquice maior que essa, só o estado de coisas em que se encontra o Brasil, onde aqueles que deveriam defender a virtude são os maiores corruptos, criando uma guerra velada, na qual as pessoas não morrem de tiro ou bomba, mas de fome e falta de remédios. Falta o sentido de humanidade.
Mudando de assunto: não fui traduzida em português de Portugal. E me cidade italiana moras?
Recebe os votos de shalom da
Cíntia
 
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