A hipocondria, esse pânico ritualizado. Quem duvida, e há quem duvida, que os judeus têm o monopólio da dor no mundo, é porque ainda não assistiu um judeu em ação. Porque os judeus ensinam a hipocondria, são todos doutores na matéria, e uma consulta médica é um inferno --- antes, durante e depois.
A mãe judia, a minha, foi consultar o cardiologista. Foi sozinha, que nenhum dos filhos podia acompanhar, mesmo porque era consulta de rotina. Exames. Colesterol alto, pressão alta. O médico prescreveu remédios e mandou que ela voltasse para novo exame clínico dali a duas semanas. Ou pouco mais, ou pouco menos do que isso. Acontece que, nos dias que se seguiram à consulta, a mãe não sossegou: por que era que ela tinha mesmo de voltar ao consultório? Tentei argumentar que era pra ver se os remédios tinham surtido efeito, se a pressão e o colesterol tinham baixado.
Ela não se aquietou: e se houvesse alguma coisa que ele não quisesse dizer a ela, que estava sozinha? Sozinha, sem nenhum dos filhos pra acompanhar — e me atirou na cara o descaso.
A pergunta ficou martelando e martelando. E martelou ao ponto de eu me sentir uma carrasca do Holocausto, que tinha mandado a mãe pro médico sozinha. Tentei me convencer da maluquice, tentei mostrar a mim mesma que era tudo uma doideira. Até que EU ME CONVENCI de que havia, sim, algo de errado com o materno coração.
O resultado foi esse: ligar numa sexta-feira à noite para o celular do cardiologista. Que, numa elegância de dar nos dedos, me garantiu que a mãe só tinha pressão alta e colesterol alto e que tinha saído do consultório com a receitazinha do remedinho.
Escrevo isso aqui e agora para me garantir de nunca mais voltar a fazer essa cacaca. E para me lamentar: quem tem uma mãe judia tende a ser mesmo louco de atar.
Grande doutor Alcides Zago, que tem aquilo que nunca deve faltar a um médico: uma paciência de jó.