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Sexta-feira, Agosto 05, 2005

 

Hipocondríacos do mundo, uni-vos!

A hipocondria, esse pânico ritualizado. Quem duvida, e há quem duvida, que os judeus têm o monopólio da dor no mundo, é porque ainda não assistiu um judeu em ação. Porque os judeus ensinam a hipocondria, são todos doutores na matéria, e uma consulta médica é um inferno --- antes, durante e depois.
A mãe judia, a minha, foi consultar o cardiologista. Foi sozinha, que nenhum dos filhos podia acompanhar, mesmo porque era consulta de rotina. Exames. Colesterol alto, pressão alta. O médico prescreveu remédios e mandou que ela voltasse para novo exame clínico dali a duas semanas. Ou pouco mais, ou pouco menos do que isso. Acontece que, nos dias que se seguiram à consulta, a mãe não sossegou: por que era que ela tinha mesmo de voltar ao consultório? Tentei argumentar que era pra ver se os remédios tinham surtido efeito, se a pressão e o colesterol tinham baixado.
Ela não se aquietou: e se houvesse alguma coisa que ele não quisesse dizer a ela, que estava sozinha? Sozinha, sem nenhum dos filhos pra acompanhar — e me atirou na cara o descaso.
A pergunta ficou martelando e martelando. E martelou ao ponto de eu me sentir uma carrasca do Holocausto, que tinha mandado a mãe pro médico sozinha. Tentei me convencer da maluquice, tentei mostrar a mim mesma que era tudo uma doideira. Até que EU ME CONVENCI de que havia, sim, algo de errado com o materno coração.
O resultado foi esse: ligar numa sexta-feira à noite para o celular do cardiologista. Que, numa elegância de dar nos dedos, me garantiu que a mãe só tinha pressão alta e colesterol alto e que tinha saído do consultório com a receitazinha do remedinho.
Escrevo isso aqui e agora para me garantir de nunca mais voltar a fazer essa cacaca. E para me lamentar: quem tem uma mãe judia tende a ser mesmo louco de atar.
Grande doutor Alcides Zago, que tem aquilo que nunca deve faltar a um médico: uma paciência de jó.


Comentários:
Oi Cíntia. Você tem uma explicação do porquê os judeus são assim? Não digo exatamente hipocondríacos, mas algo mais amplo. Por exemplo: da maneira como descreve sua mãe, ela podia muito bem ser uma mãe dos filmes do Woody Allen. Ou seja, o "tipo" é suficientemente frequente na comunidade judaica pra virar um "tipo", né? Acho fascinante isso (minha mãe é exatamente assim, sem no entanto sermos judeus; portanto o tipo também é universal, hahaha). Mas não entendo a origem - enquanto povo, comunidade - desse comportamente nos judeus.

Bem, de repente eu esteja falando asneiras. Enfim, sempre quis perguntar isso, mas os judeus que conheço não são exatamente acessíveis...

Abração e continuo muito teu fã (cada vez mais).
 
Oi, Saint-Clair. (Dúvida: tu és o Clóvis? Me deu um embananamento de nomes na cabeça...)
Olha, meu amigo, acho que todas as mães, judias e não-judias, em qualquer quadrante do mundo, são assim. Elas fazem parte, como bem disseste, de um ¨tipo", reconhecível facilmente. Mães judias, assim, não são uma exclusividade judaica. Mãe é mãe, e as mães judias, como as outras mães, manejam a culpa assim como manejam (sempre bem) as panelas. Elas são ótimas cozinheiras e ótimas fomentadoras da culpa alheia.
O que acontece, e o que chama a atenção, é a hipocondria dos judeus. Que não sei como surgiu, quando surgiu e de que jeito. Sei que existe isso, o temor da doença. E por existir o temor da doença, e por todos termos mãe, e pelas mães judias terem chegado à excelência no manejo da culpa, os ingrediente se unem e explodem.
Em tempo: todos os não-judeus que conheço, e meu marido não é judeu, lidam com a doença normalmente. Enquanto que os judeus que conheço lidam com a doença paranoicamente.
Será que te respondo.
E obrigada pelo post.
Beijo!
 
O Cíntia, eu não sou o Clóvis não. Meu nome é mesmo Saint-Clair (não é apelido). Você me respondeu sim, obrigado.

Talvez essa paranóia com doença venha dos tempos do Antigo Testamento, quando a vida dos hebreus era mesmo muito difícil. Imagino que naquela época por qualquer coisinha se morresse fácil. Um corte no dedo, uma picada de inseto, um gole de água envenenada... Mas é só uma hipótese. Abração!
 
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