De volta pra casa, depois de um sabático período de trinta dias na Austrália, acompanhando Luiz Paulo, meu marido, que foi convidado a julgar gatos de raça. (Pois é, ele julga gatos de raça. O que eu posso fazer?).
Ainda zonza pela diferença de fuso (13 horas), eufórica pela indicação ao
Prêmio Bravo! Prime de Cultura (detalhes no post abaixo), tento entender o que foi que aconteceu por lá. Trinta horas de vôo, o outro lado do mundo, como se pudesse pisar no lado escuro da lua. O lado escuro do mundo.
Pois o que a gente viu foi de cair o queixo. Um país tão jovem, 200 anos de vida, consegue ser uma mescla de Berlim, Londres, Nova York e Boiadeiros. Renda altíssima, clima sequíssimo, cidades feito cenários acabados para rodar um novo Blade Runner — e uma gente conservadora, reacionária, que proíbe não só o fumo: também a venda e consumo de álcool em vários lugares, além de multas pesadas para quem cuspir no chão ou buzinar em área residencial.
Na maior parte do tempo, a gente se hospedou na casa de australianos. O que equivale a dizer que a gente conviveu com a classe média deles, fazendo as refeições do jeito deles, indo ao super e fazendo o que eles costumam fazer. Foram três casas, as que nos hospedaram. A última delas, acho, é a mais emblemática: pertencente a um casal, o marido é mecânico de automóveis e a mulher é aponsentada. O mais surpreendente: eles têm casa própria, três aparelhos de tv, carro na garagem, calefação central, geladeira, freezer (dos imensos), microondas, fogão elétrico, lareira, computador e internet com banda larga, assistência médica perfeita, segurança pública assegurada, telefone de emergência que atende. Vida digna e boa. Vida que um mecânico, no Brasil, não teria. O único ponto em comum entre um mecânico de automóveis brasileiro e um australiano são as unhas pretas de graxa.
Dá uma revolta danada.
Enquanto escrevo isso aqui, o Grêmio Náutico União, um clube sócio-esportivo que é meu vizinho, promove um torneio de natação. O locutor, de bons pulmões, berra. Ajuda-o na tarefa de berrar um sistema de som potente. Não adianta eu telefonar reclamado do barulho.
Na Austrália, penso eu, a polícia teria cercado o prédio. Teriam ido em cana todos eles, atletas e locutor, por perturbar a paz dos vizinhos. Não pode, ao menos na Austrália.
Isso é que é civilização.
Depois conto mais. Agora, vou me trancar no quarto, fechar as janelas e ligar a tv. Pra ver se afasto o barulho e descanso da zonzeira que tudo isso me dá.
Saudades dessa gente boa e cordial que é a nossa.