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Domingo, Maio 29, 2005
Casa de areia e névoa
Domingão. Só ligo a tv de noite, pra ver o que rolou de dia. Tentando acabar um conto que é, ao mesmo tempo, um capítulo de uma novela. O fim de semana consagrado a isso. Um parágrafo rola, e a gente tem de abrir uma champanha pra comemorar. Leio no blog do Santiago Nazarian que a Bienal não foi boa pra ele. Taí: a tal assincronia, os opostos aqueles. Bom pra um, ruim pra outro. Ontem, tirei um filme pra ver no dvd. Casa de areia e névoa, de Vadim Perelman, com o imperdível e inacreditável Ben Kingsley. É, claro, a história de uma casa. Mais: a história de uma família iraniana, cujo pai é um militar, que se refugia nos Estados Unidos. A prepotência americana esfregada na cara, com uma atuação de chorar de Kingsley. Nunca se viu tanta nobreza encarnada por um ator. De rezar. Quem não viu não deve perder. E cuidado que tem choro. Boa semana pra todos.
Sexta-feira, Maio 27, 2005
Bienal, ainda ainda --- e deu, era isso
Depois de me sacudir de risadas com o final do relato sobre a Bienal que a Ivana Arruda Leite fez, nada mais me resta, execeto apreciar o final da tarde de outono. Um ar fino, puro, transparente, ar de flutuar dentro dele mesmo, de se esbaldar dentro de uma luminosidade dourada e fria. Que outonos, os nossos! Ainda com relação à Bienal, devo dizer que nossa mesa-redonda, a Ivana e eu, foi o mais puro desfrute. E o que fizeram foi genial: puseram o Fernando Molica, autor de Notícias do Mirandão, de mediador. Um jornalista perfeito, com um senso de humor pra lá de refinado, que conhece o assunto e que não fica se fazendo com os autores. Foi um debate divertidíssimo, sobre traição, que nada teve de inconfidências de alcova. Mesmo porque não tenho nada de excepcional para contar neste sentido. No estande da Record, a gente fez QG. Ponto certo de encontro de editados da casa e de gente de fora. No final do domingo, o Luiz Ruffato, que vai autografar na quarta-feira seus Mamma, son tanto felice e O mundo inimigo, às 20h, na Casa de Cultura Mario Quintana, lançou o + 30 mulheres que estão fazendo a atual literatura brasileira, volume por ele preparado dentro do maior clima de generosidade. Para gáudio e prazer, a Paula Taitelbaum, que integra a coletânea, estava por lá. A novidade ficou por conta do Erik Marmo, ator global, um bonitinho, que leu dois contos no maior clima profi. Fui obrigada a dizer pra ele que ele não era só bonitinho: ele é, também, bom de cena. Mandou bem. E vam que vam. Fim de semana na porta. E há que escrever. (Ah, e ainda na quarta, estarei, às 19h, junto com o Claudiney Ferreira, entrevistando o mesmo Ruffato para mais uma edição do Jogo de Idéias, do Itaú Cultural. A gravação é aberta ao público.)
Quarta-feira, Maio 25, 2005
Bienal, ainda
Pois falava do Sofitel, o hotel da Bienal do Rio. Não há como a Ivana para descrever. Com todo o respeito pela colega, de quem acabo de ler o maravilhoso Ao homem que não me quis, me atrevo a comentar o chiquê das acomodações. No quarto da Ivana, pelo que ela conta, eram duas camas de solteiro. No meu quarto, como eu ia com meu avec, cama de casal. De casal, maneira de dizer. Uma coisa imensa, um latifúndio fofo, onde cabiam, sem exagero, três pessoas esparramadas (até três travesseiros foram colocados. Sei lá se alusão à tal coisa a três aquela). Sacada, abajures, lâmpadas de cabeceira, frigobar, banheiro com direito a roupão, espumas de banho, coisital. Lençóis de percal, aqueles com toque de seda. Até um pecado deitar. Café da manhã com direito a ilhazinha O café da manhã era farto: pães, bolos, bolachas, queijos, fiambres, manteigas, geléias, croissants, brioches. Numa ilhazinha, um moço paramentado fazia omeletes e waffles. Os omeletes eram daqueles crocantes e fofinhos. Para garantir o dia. Em resumo: já na chegada, a gente foi tratado como rei. Mesmo que seja uma exceção em nossas vidas, e por ser uma exceção em nossas vidas, a hospedagem no hotel de sheik árabe, com direito ao marzão lindo de doer, com direito a Copacabana linda de doer, foi um carinho que a Bienal fez a seus autores. Mais um dos muitos carinhos.
Jantando em Copacabana, no Leme e no Leblon Uma das coisas mais bacanas que um evento literário pode propiciar a seus convidados é o encontro. Encontro assim, sentido amplo: do escritor com seus leitores, do escritor com os editores, do escritor com agentes literários, do escritor com outros escritores. Foi o que a gente fez: a gente se encontrou. Na primeira noite, nos encontramos com a Adriana Lunardi (do inacreditável Vésperas) e com o Max Mallmann (do maiúsculo Síndrome de Quimera) no Manoel e Juaquim e que fica na Atlântica com a República do Peru (a rua). Chope, chope e chope. E uma conversa de se rolar de rir. Na segunda noite, jantar com Lívia Garcia-Roza (que acaba de lançar o imperdível Restou o cão, pela Companhia das Letras) e Rosa Amanda Strausz (que acaba de lançar Teresa, excepcional biografia de Santa Teresa), papo que me rendeu dor de cabeça de tanto pensar. Foi no La Fiorentina, no Leme. Coisa muito boa. Na terceira noite, jantar com os editados da Record, capitaneado pela Luciana Villas-Boas, no Mario´s do Leme. Fomos nós, claro, o Marcelo Carneiro da Cunha, o Luis Ruffato, a Simone Ruffato, Alberto Mussa (que eu não conhecia. Só sabia que ele tinha ganho o Casa de las Américas com O Enigma de Qaf, que já comecei a ler e recomendo), Stéphane Chao, que é agente literário, e mais uma agente literária alemã (cujo nome, por ser em alemão, não sei escrever). Uma convivência necessária, imprescindível. E conhecemos o Miguel, filho da Luciana, uma das crianças mais lindas que já vi na vida. Parecido com a mãe. Uma graça. No domigo, fomos ao Informal no Leblon. Mussa, Chao e Ana Maria Santeiro, além de nós. Mais cerveja. E, como era a finaleira, começou a esfriar e esfriar.
De renguear cusco
O frio e a chuva eram tamanhos naquele final de noite, domingão, que dei de mão numa jaqueta que encontrei no banco traseiro do carro do Mussa (a gente ficou íntimo de um dia pro outro). Era, dizia-me o Mussa, do Antônio Torres ou do Bernardo Ajzenberg. Pelo tamanho, era do Bernardo, o Bera. Me senti abrigada pela jaqueta. É outra coisa colocar casaco que pertence a escritor. E a do Bera era perfumada, como se tivesse, sei lá, me esperando. Quando saíamos do restaurante, olhei para o Chao, que é francês, de La Rochelle. O guri se enrolava com os braços, lábios arroxeados, cabelo arrepiado. Era isso: uma gaúcha e um francês passando frio no Rio de Janeiro. Pode?
Segunda-feira, Maio 23, 2005
Bienal, anotações
De volta da Bienal, com direito a gripão, que me aplastou na cama, nada me impede de ainda curtir o prazer de participar de um evento muito bacana, muito organizado e, melhor do que tudo, prestigiado por um público que lotava os corredores do Riocentro. Do peru, mesmo. Vou contando detalhezinhos. Mas quem quer se divertir a valer, não deixe de ler o blog da Ivana Arruda Leite. o Doidivana. Tá imperdível. Civilidade Não que nossa Feira do Livro de Porto Alegre fique a dever em briho e organização. Ao contrário da nossa Feira (à qual TODOS OS AUTORES com quem conversei querem vir), que é realizada a céu aberto, a Bienal do Livro se concentra em pavilhões do Riocentro. Para chegar lá, uma hora em quatro rodas, se o trânsito ajudar. A bordo de carros chiquetésimos, com ar condicionado, motorista multilíngüe e balinhas pra distrair. Antes, na chegada ao aeroporto, os moços esperavam a gente com aquelas plaquinhas com o nome escrito. Pequeno mico, ultrapassável não sem algum constrangimento. Fomos, Luiz Paulo e eu, com a Martha Medeiros no mesmo vôo da Varig, que ainda voa. Saí do desembarque e lá estava o moço com seu instrumento de trabalho. Pedi pro moço da plaquinha esconder a dita. E saímos os três ao calor diabólico de um Rio de Janeiro nas chamas dos trópicos. Num carrão. Me senti a Susan Sontag. Rumo ao Sofitel. Ah, o Sofitel. Depois eu sigo. Tenho de espirrar, tossir, botar termômetro e rezar por recuperação.
Quinta-feira, Maio 19, 2005
Bienal e o alface expurgado
Daqui a poquinho saio pro Rio. Bienal, debate com a Ivana Arruda Leite sobre traição. Momento de rever amigos, de acompanhar Luís Ruffato e Paulinha Taitelbaum no lançamento de +30 Mulheres que estão fazendo a nova literatura..., volume que ele está organizando. E de ver o Max, a Dindi, a Lívia, a Rosa Amanda, a Luciana... Vou ser feliz, afinal. Antes de sair, deixo aqui um texto que escrevi e que não foi aproveitado pela revista Aplauso, conforme comentei num post aqui mesmo. Vítima de atentado contra a liberdade de expressão, dama que anda sendo tratada a pontapés, o texto não vai ser mesmo usado pra nada, apesar de o jornalista da revista ter-me persuadido a escrevê-lo. Ele, o texto, seria acompanhado por outro texto, de uma senhora, minha suposta oponente, que não quis que se publicasse o que ela tinha a dizer --- e que nunca disse. A publicação de meu artigo ficou pra depois, empurrado com a barriga. Agora, o jornalista me informa que uma alentada matéria sobre eventos literários não vai mais sair, tá difícil, que a coisa não foi bem assim como eu pinto. Fiquei assim, de cara, porque o jornalista era um dos bravos da nossa imprensa, um cara que baixa o pau e malha gente quando acha que deve fazer tal cousa. Claro, quando se trata do emprego dele, tudo muda. Eu não posso acusar ninguém por estar garantindo o leite das crianças. Só um pouqunho de coerência, isso o que a gente queria. Ele foi coagido a baixar a crista e baixou. Quem diria. Se o leitor entendeu até aqui, melhor. E explico uma partezinha da croniqueta que segue: quando falo de eventos que pretendem fomentar a literatura e que, no entanto, "não são para vender livros", falo "daquele" evento e de uma frase dita ao presidente da república pela organizadora mandona da cousa O texto que não saiu foi o que segue. Serve para se refletir sobre a atividade de escrita. Eu acho. O expurgo do pé de alface
Beto, um guri de seus 14 anos, me escreveu, por correio eletrônico, dizendo que um volume de contos de minha autoria tinha sido objeto de estudo em seu colégio. Como a prova se aproximava, ele foi direto: confessou que não tinha lido meu livro. Precisava de um "resumozinho" dos contos para não ser reprovado. Despachei o Beto com uma bronca. E com um tema de casa: que ele entendesse que me pedia para lhe dar a única coisa que eu tinha para vender. Eventos literários — como as feiras e salões do livro realizados no Estado e no país — servem para coisas essenciais, todas interligadas, todas partes do chamado sistema literário (o que diria o mestre Antonio Candido?). Além de fomentar o hábito da leitura, os citados encontros propiciam a sempre bem-vinda troca de idéias entre leitores, escritores, editores, livreiros e quem mais chegar. São atividades que, resguardadas as proporções, ajudam a legitimar o trabalho do escritor, que, apesar de ser o miolo do tal sistema literário, precisa de contínua revalidação — ou alguém pensa que o Beto pediria a um médico uma consulta de graça? Mais do que conceder um alvará de funcionamento ou uma carteira de identidade de escritor ou, ainda, incentivar o amor aos livros, os encontros literários sinalizam o desejo da sociedade, que quer que o escritor trabalhe e que tenha crédito mínimo. Esse papel, o de confirmação da crença na leitura e da confiança no papel do autor, não pode ser ultrapassado na marra — exceto pela figura do leitor, que tem o transcendente arbítrio sobre o texto. Quando um evento literário prescinde da figura do autor — de qualquer autor —, que é o eixo do sistema ao qual o evento literário se encaixa e do qual necessita, tudo perde o sentido. Em nome da nobreza, o evento literário passa a existir como um fim em si mesmo. Coisa para inglês ver. As coisas podem ser piores. Se, como anda em moda, se realiza um evento que encarna o incentivo à leitura e que, por outra parte, faz questão de ressaltar que "não é para vender livros", algo está torto. É a quinquilharia preconceituosa em ação: o abstrato do processo criativo não pode ser remunerado sem que se cometa um crime hediondo. Mister é ler; vender livros, nem tanto. É como se houvesse uma feira agropecuária à qual criadores de gado não comparecessem, sendo desaconselhada a venda de bois. Ou, melhor, uma feira de hortifrutigrangeiros, da qual os plantadores de alface, e os pés de alface, fossem expurgados. Salvo maioria de exceções honrosas, os eventos literários têm dado as costas às manifestações dos escritores — alcançando o êxtase na adoração do própria causa, se arvorando no papel de pauteiros e censores dos meios de comunicação, dão de ombros ao papel do autor dentro do sistema. Até que esta situação seja corrigida, literatura continua a ser circo, a venda de livros é desaconselhada e a profissão de escritor só tem equivalente no pé de alface expurgado. Piores notícias: daqui por diante, ninguém mais segura o Beto.
Terça-feira, Maio 17, 2005
Apenas um pedido
Seguinte, ó: tenho recebido visitas aqui no blog, coisa que eu acho bom, bonito e saudável. Mas tá dando crepe. As últimas três postagens foram feitas em seqüência, com diferença de poucos minutos. O autor das postagens, que deve ser um só, se identificou de várias maneiras e não deixou seu endereço. O pior é que tem usado palavrões e tem sido ofensivo. Não é coisa que se faça, não é elegante, muito menos civilizado. Como não vou ser eu a cercear a liberdade de expressão, apenas peço que peguem mais leve. Uma chatice ter de conviver com os grossos do mundo. Pega mal pra certo evento literário, ainda por cima.
Quarta-feira, Maio 11, 2005
Bartleby
Chove em Porto Alegre. Como chove. As plantinhas estão afogadas, raízes nadando. E a gente aqui, tendendo a se encochar. Nesses últimos dias, tenho escrito ou tentado escrever. Lendo Bartebly e companhia, do espanhol Enrique Vila-Matas, linda edição da Cosac e Naify, livro que me foi indicado, claro, pelo mestre Assis Brasil. É um livro sobre o Não -- maiúsculo. Não escrever, não seguir adiante com a carreira literária, como fez, por exemplo, o Salinger. Vila-Matas pega o personagem-escrivão-copista do Melveille e transpõe para agora, para já, para essa época de computadores e celulares. Mas é uma escrita lenta, cuidada, ofício de quem conhece o ofício, sem o apelo da novidade pela novidade. São pequenas notas, que ele chama de rodapés, mas que são rodatetos, falando sobre a parede literária. Mais do que a coragem de escrever, fica-se entendendo, a coragem de não escrever é o desafio. Tipo assim: quem não tem mais o que dizer, que saiba calar a boca e a pena na hora certa. O resto será só silêncio. Parando de escrever, muito autor faz um baita serviço para a humanidade. Recomendo vivamente. ****** E vamos seguindo. Alguém aí anda com interesse sobre oficinas de criação literária? Quem estiver a fim, diga. Estamos montando uma nova.
Quarta-feira, Maio 04, 2005
O tempo não pára
Pois novamente me ausento e torno a voltar. O problema é que sai do ar provedor, coisa pra se fazer, matéria pra entregar, texto pra escrever. Pareço que não tive uma educação decente: as pessoas vêm ao blog, deixam mensagens, e não consigo responder. Corrigirei, prometo. E gracias a todos os que vieram me visitar. Indo direto ao ponto doloroso do dia de hoje. Quando pensei que podia descansar, que o silêncio de La Rösing resolveria o embrulho e que minha parte estava feita, mais coisas acontecem. Imprensa sendo tutorada e barrada no baile. Tive de escrever a mensagem que segue. Envei ao todos quanto pensei que pudesse interessar. Olhem só: Prezados amigos e colegas de ofício, Volto a escrever de forma circular, porque as circunstâncias me obrigam. Novamente, o assunto, que já me causa fastio, é a professora Tania Rösing e Jornada de Passo Fundo: aquela polêmica que foi por ela ignorada. A mesma polêmica que seguiu adiante porque toda a comunidade cultural se levantou, clamando por uma resposta. Aliás, todos clamaram por duas respostas: por que, afinal, a Jornada contava com tão poucos autores gaúchos e por quais motivos a professora não respondia a um escritor que mereceria a atenção devida. (A bem da verdade, a segunda pergunta é a mais repetida e comentada. Já ninguém quer saber os motivos, decerto fúteis, que leva essa senhora a prestigiar autores do centro do país em detrimento de autores gaúchos. Todos querem saber por quais razões, afinal, ela se julga tão suficiente para negar interlocução aos autores da terra, uma vez que foram eles, os autores da terra, que deram o estofo necessário para que a Jornada seja o evento que é). Pois, por dever de lealdade a meus pares, dever que a professora não julga ter, passo a relatar um triste episódio ocorrido na última semana. Sinto antecipar que, desta feita, não tenho a intenção de informar. Agora, o teor é de denúncia, pura e simplesmente. A professora Tania Rösing está monitorando e fazendo o papel de tutora da imprensa gaúcha. Melhor dito: a professora está censurando os meios de comunicação. Explico. Há duas semanas, um pouco mais, o jornalista Flávio Ilha, da revista Aplauso, me telefonou pedindo um texto curto e genérico sobre a importância dos eventos literários para os autores e para o incremento da leitura. Informava-me o jornalista que tal matéria seria veiculada ao lado, ou próxima, de uma matéria da professora Tania, na qual ela explicaria o funcionamento da Jornada, seu planejamento e critérios. Como se tratava de pedido de um colega para um veículo que atende a comunidade cultural, não tive como me esquivar. Noblesse oblige, quem é do ramo sabe. Escrevi um artigo curto, enxuto, cuidadoso, falando sobre tais eventos e sobre o trabalho do escritor. Fiquei satisfeita com o resultado, achei que todos concordariam comigo, e enviei o dito texto. Fui trabalhar, porque o tempo me cobra as obrigações de ofício. A surpresa, nem tão surpresa assim, veio quando o mesmo jornalista me informou que não podia publicar minha matéria porque a professora, tendo enviado seu texto, telefonou para a revista proibindo a publicação. Ante minha estupefação, respondeu-me o colega que Tania havia dito que seu texto envolvia a Universidade de Passo Fundo e que a UPF não lhe dava o respaldo para falar em nome da entidade. O jornalista disse que sentia muito, mas que sua pauta tinha sido evaporada e extinta. E que meu texto poderia ser aproveitado em outra ocasião, já que era tema de interesse de todos. Ora, no meu tempo, e lá se vão anos, fazia-se assim: ou se publicava um soneto de Camões ou uma receita de bolo no lugar do artigo que a censura havia glosado. Como a Aplauso não se presta a publicar nem uma coisa nem outra (embora Camões não seja, de forma alguma, estranho ao objeto da publicação), e como existe um código de conduta e de ética a nortear os trabalhos da imprensa, a revista fez o que deveria fazer. Cumpriu o legal atendendo o imoral. Por imoral, no caso, entenda-se a proibição, a posteriori, de um texto enviado à redação. Sabe-se lá que outra pauta não teve de arranjar o editor para, nos derradeiros instantes, tapar uma cratera na edição. E que sentimento de frustração não assolou o mesmo editor, e o jornalista, ao se ver proibido de cumprir com sua tarefa, que é a de informar. Outro episódio, que até aqui mantive oculto por já estar cansada de perder tempo com murros em ponta de faca, ocorreu no início de abril, quando fui convidada a um programa de rádio, numa das emissoras da RBS, para falar da Jornada e da querela toda. O programa, ao vivo, foi ao ar, com a intervenção dos escritores Luís Augusto Fischer e Marcelo Carneiro da Cunha por telefone. Tudo civilizado, normal, como são nossas relações por este meridiano. O interessante é que, horas depois do dito programa, recebo um telefonema de uma pessoa de minhas relações, professora da Universidade de Passo Fundo. A professora, que pediu que seu nome seja mantido em sigilo porque teme por seu emprego, me comentava que, antes do início do programa, o apresentador, homem de conduta lisa e reta, discreto a ponto de nada me comentar, apreciado por suas muitas virtudes e por sua luta em prol das artes no Estado, recebeu um telefonema de Tania Rösing. No tal telefonema, a professora dizia que o programa estava sendo gravado e que não hesitaria em usá-lo em qualquer foro e momento para provar que a "RBS está contra a Jornada". A professora que se mantém no anonimato (não concordo muito com isso, mas entendo a postura de um profissional que necessita de trabalho) ouviu a dita conversa, que gerou comentários em várias rodas, segundo me relatava. Convém dizer que esta anônima trabalha diretamente com Tania Rösing, a quem admira e apóia com toda a convicção. A atitude, por ser grosseira, prepotente e ignorante, teve o efeito de decepcioná-la. Por dever intelectual e moral, viu por bem comentar-me o fato. Não duvido nem um pouco de minha informante, assim como não duvido de nenhuma outra pessoa que, sempre no anonimato, fez denúncias desabonadoras acerca da conduta da professora Tania. Não duvido, porque o silêncio acintoso nada contesta, tudo confirma. O que mais me revolta, e revoltará a todos, estou certa, é o tom de ameaça, o cerceamento da sagrada liberdade de imprensa, o obstáculo posto ao exercício profissional de gente e de veículos de conduta ilibada, a acusação leviana de que jornalistas, ao cumprir suas tarefas básicas, estejam contra ou a favor de algo. Jornalistas informam, como eu mesma informei quando cobri a Jornada no ano retrasado. Jornalistas estão subordinados apenas aos interesses da comunidade, que exige trabalho ágil, preciso e amplo. Qualquer entidade ou instituição que se proponha a dificultar este trabalho, que limite a cobertura de fatos concernentes à coisa pública com o clássico "nada a declarar" dos culpados e dos ignorantes, qualquer um que subtraia de um profissional sua matéria essencial — qualquer um — merece o repúdio de todos. A professora Tania Rösing, envolvendo a briosa UPF, entidade da qual é egresso, inclusive, o escritor Plínio Cabral, ganhador da última edição do Prêmio Zaffari & Bourbon de Literatura, presta os piores serviços à sua própria causa. E merece a denúncia que agora assino. Cordialmente,
Cíntia Moscovich Escritora e jornalista
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