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Quinta-feira, Julho 28, 2005
Aplauso Brasil
Está no ar a revista Aplauso Brasil. A primeira matéria, uma entrevista feita comigo pelo competente Oscar Bessi Filho, está bem bacana, modéstia à parte. Com edição Michel Fernandez, ator, dramaturgo, diretor e crítico teatral --- e dançarino, apesar de sua cadeiras de rodas, a entrevista pode ser vista no banner "último segundo", do IG, que está em diversos sites. Para dar uma olhada, clique aqui.
Sexo e bossa

A imagem aí do lado é a capa do livro Sex´n´bossa, publicada pela editora Mondadori, da Itália.
Com organização da Patrizia Di Malta, há textos de vários autores brasileiros (eu, a mais modesta autora de todos (: ), todos eles sobre, claro, sexo. Embora tenham colocado a imagem de uma cabrocha, a mais bonita desta ala. É o que nós temos: sexo e bossa. Legal, né? Para a antologia, foi traduzido um trecho de Duas iguais, meu único romance. Até agora, pelo menos. (Eu, com um corpinho como o da cabrocha aí de cima, já fazia a festa. Estou providenciando, a bordo do dr. Fernando Beillouny.)
Terça-feira, Julho 26, 2005
Rompendo o silêncio
No final de semana, como a coisa andava meio preta, resolvi ter algum sossego. Fui à locadora e tirei alguns dvds. Entre eles, Rompendo o silêncio, série de cinco documentários sobre o Holocausto dirigidos por cinco cineastas — Luis Puenzo, Pavel Chukhraj, János Szász, Vojtech Jasny e Andrzej Wajda, produzidos por Steven Spielberg. Os documentários, feito nos moldes de declarações testemunhais de sobreviventes, são baseados em material do Survivors of the Shoah Visual History Foundation, também de Spielberg. O que mais impressiona não são as imagens, feitas logo que tropas americanas e russas deram fim àquela loucura — aquelas que mostram montanhas de cadáveres, pilhas de dentaduras e de óculos, gente feito defuntos apegados a um restinho de vida. O que impressiona mesmo é o teor do que é contado, façanhas que vão de assassinatos à queima-roupa até a delação pura e simples de gente que, não tendo nada a ganhar ou a perder, resolvia avisar que havia judeus por perto. Por que é que um sujeito resolve avisar a SS ou a Gestapo que o vizinho do apartamento de cima é judeu, sabendo que isso representa a morte? Num tempo de CPIs e decepções gerais, vê-se que as coisas têm funcionado assim: cada um cuida do seu próprio umbigo, do próprio bolso e da própria vida — se possível, ferrando os demais. Roubar uma montoeira de dinheiro dos cofres públicos é tão indecente quanto provocar a morte do outro. A loucura não tem medida nem fim.
Sábado, Julho 23, 2005
Governo do coração
Meu pai era um cara austero. Nunca levantou a voz, que eu me lembre, e nunca afroxou a autoridade que tinha sobre a família --- embora ninguém duvidasse que ele nos amava muito. Estamos dentro da irrealidade bastarda. Ao invés de o presidente, pai escolhido da nação, dar segurança a seus cidadãos-filhos, ele afirma, em discurso a metalúrgicos, que, para governar, é preciso coração. Aos berros. Não adianta fazer coisas com o coração, os afetos se vivem em instâncias individuais --- familiares ou fraternas ---, devoção a uma causa não torna legítima a irregularidade. Não se governa nada com o coração. Seja uma casa, seja uma nação. Se governa com a cabeça, com toda a energia pensante que se possa empregar. Se governa com a mão da autoridade. E que a mão esteja limpa, asseada e organizada. Essa é a melhor forma de amar: dar segurança e lar. Ora, presidente, vá falar de amor pra sua turma. Só eles conhecem esta porcaria de amor que o senhor quer nos enfiar goela abaixo. Senhor presidente, o senhor é uma porcaria de pai. O senhor não tem autoridade nenhuma. Amor nenhum. Presidente, na boa e com todo o respeito devido ao mandatário maior da nação: vá catar coquinhos.
O PT não me deixa trabalhar
Semana cheia, essa que termina. Mas tenho de continuar. Acho que tenho de continuar. Tenho de responder um comentário postado aqui pelo Eloy, um cara bem legal, que quer conversar. Mas não dá pra deixar passar: acabo de ver o Lula dizer que não vai se deixar dobrar (ou abater ou verbo equivalente) pelas elites. E que ninguém vai ensinar ética a ele, que ele passou trabalho e fome, que a mãe era tão analfabeta que não sabia nem fazer a letra O com a ajuda de um copo, o pai dele alguma outra coisa, bem sofrida, como é a gente de nosso país. É que não dá mais. O Lula, no discurso, inaugurando alguma coisa relacionada a petróleo (peguei o bonde andando, desculpem), disse isso aí de cima, se esquecendo que ele agora é a elite, é a situação, é governo, e reprisou o que sempre disse, ele que tornou a deficiência de formação em virtude. Agora, a moda pegou: até o Roberto Jefferson faz o teatro dos vícios e, ao confessar um crime, vira herói porque o faz. Faz de todos nós, espectadores do espetáculo da CPI, cúmplices de seu delito, esperando nosso perdão. O Lula nos penaliza, aquele dedo faltante nos fuça a culpa, somos cúmplices da infelicidade dele. Ora, faz favor. O Lula não disse nada de novo. E, do alto de seu passado vida-seca, mérito imbatível, prometeu que vai punir os culpados, duela a quien duela. Isso, de "não me venham ensinar ética, porque eu sei o que é ética, fui trabalhar, mas podia estar roubando" não cabe mais. Ensina-se ética a um presidente do PT que manda pra casa o ministro das Cidades, colaborador do partido desde sempre. Olívio Dutra foi despedido por imposição de Severino Cavalcanti. De quem, mesmo? Severino Cavalcanti, repetimos. Isso lá é ética? Vender a alma por um pratinho de lentilhas com caruncho. Não defendo o Olívio, que ficou como um boboca esperando telefonema da Casa Civil, quando tinha de esvaziar as gavetas e apagar a luz, para economizar energia. Mas ataco o presidente. Cercar-se de ladrões, biltres, mentirosos. Dizer que não sabia, quando sabia. E que o PT não foi o único partido a usar caixa dois. Se não foi, se o vício aparecia antes, porque não aproveitou e investigou a roubalheira que ele diz que existia no governo FHC? Por que ele deixou todo mundo impune e aproveitou a onda e a deixa? Na boa, não dá mais. Desmanchem o PT, reorganizem a vida nacional, refaçam a lei eleitoral, criem a fidelidade partidária, acabem com a possibilidade de doações, pelamor. Eu preciso trabalhar. Mas o noticiário me mesmeriza. E eu não acredito. E minha novela não anda. Impressionante: a vida real ultrapassa e dá de dez na ficção.
Terça-feira, Julho 19, 2005
Quem ainda acredita?
Hoje, terça-feira, 19 de julho, o escritor Marcelino Freire autografa, em São Paulo, seu Contos negreiros, livro que já vem ao mundo sob a marca da polêmica. Matéria da Veja desta semana, assinada por Jerônimo Teixeira, é pouco elogiosa -- e desnecessariamente virulenta. Marcelino fez circular pela internet uma carta aberta a Mário Sabino, editor-chefe da revista. Vale a pena ler a carta e os comentários no site do Marcelino, o eraOdito. Com relação ao fato de cair malhando um livro e um autor (seguidamente as duas coisas são uma só), deve-se prestar atenção. A resenha negativa depõe contra seu autor, na maioria das vezes, principalmente naquelas em que o resenhista demonstra truculência. Julgar a obra alheia é tarefa para a posteridade, para os que vêm depois, para as traças do tempo. Se o livro é realmente imprestável, será esquecido na primeira volta do relógio. Pelo menos a gente deveria manter a quota mínima de sanidade. Sem ódio, por favor. **** Falando em ódio: mais um abominável pintou por aqui e deixou um comentário mal-educado. Mas muuuuuuuuuito mal-educado mesmo. Com erros primários de flexão verbal. Por que nem para xingar dá pra respeitar o pobre do português? **** Hoje a CPI dá mais frutos podres. Quem ainda acredita?
Sábado, Julho 16, 2005
A musse amassa
Acabo de sentar, depois de uma dura batalha contra a cozinha, na qual, claro, a cozinha ganhou. Amanhã, domingão, vem família aqui, níver do sobrinho, o Gui. Churrasco. Eu, encarregada da musse de sobremesa. (Sei lá quem foi que falou: musse que se preze tem de ser de chocolate. O resto é imitação. Por mim, a minha de maracujá e a de limão nada ficam a dever à de chocolate.) Fiquei até agora mexendo, cortando, liquefazendo, espremendo, lavando, secando. Definitavamente: se eu tivesse de ser cozinheira, ia morrer de fome. Ei, alguém falou que escrever era difícil? Pois que tente fazer musse. Ufa!
Sexta-feira, Julho 15, 2005
A cabeleira da casa
Nunca morei em casa, sempre morei em apartamento. Me criei com gente morando embaixo e em cima, me casei e fui fazer o tal futuro num apartamento. Aliás, dois. Quis o destino que, por forças de plano cruzado e o escambau, eu viesse dar com os costados na casa em que moro. Casa provecta, de década de 30, dessas rentes à calçada. com janelas de postigos. Casa de família, que o pai comprou de oportunidade, para construir um prédio. O pai morreu antes de poder construir alguma coisa, e a casa era alugada para clínicas de dermatologia, de psicologia e, por último, para uma creche, a Criança Feliz. Quando a gente veio pra cá, tudo fedia a mijo, a casa num abandono de dono que dava dó. A gente reformou o que deu, não muito. Depois de 15 anos, nova reforma. A casa pintada de azul. O telhado, velho viveiro de musgos, ficou intocado. Alguém falou pra gente lavar ou pintar. A gente não fez nada. Sempre achei que era bonito o telhado com sua umidade de décadas de chuva, com seus fungos brotando entre as fendas: o tempo, aquele que passa sem a gente querer, e o tempo, aquele dos fenêmenos da natureza, ambos dão uma solenidade boa e aconchegante àquilo que alguns consideram velharia e sujeira. Hoje, limpando os respingos de tinta na calçada, depois de ter de pintar uma das paredes que foi pichada por um guri que não tem pai, tive estranha conversa com uma senhora que vinha passear com seus cachorrinhos. Ela falou: -- Como ficou bonita a casa depois da reforma. Eu, que estava de quatro escovando o chão com solvente, dei volta com a cabeça e agradeci a simpatia. Ela, no entanto, não se conteve: -- Só não entendi por que não pintaram o telhado. Eu pensei, pensei, pensei. Respondi: -- É que o telhado é a cabeleira da casa, que é uma senhora já de idade. Ela, sendo puxada pelos cachorrinhos, que não estavam a fim de conversa, fez cara de quem não entendeu. Eu esclareci: -- Acho que a gente deve respeitar os cabelos brancos de uma pessoa de idade, a senhora não acha? Ela olhou para mim, olhou para o telhado, olhou para os cachorros: pensava. Daí fez um ar sério, de quem conclui com grande seriedade sobre os fatos da vida: -- É. E foi embora. Vi quando, antes de dobrar a esquina, ela parou e olhou para trás, para o alto, para o telhado. Passou os dedos entre os cabelos, ajeitou um dos brincos. E tomou seu rumo, com uma dignidade de dar inveja.
Quinta-feira, Julho 14, 2005
Daslumbrante
Ferraram a Daslu (eta nominho sem graça, esse). Pode ser tática da hora, mas ferraram a Daslu. Descobriram que o tal templo de consumo (impressionante como clichê é bom: significa bem o que deve significar) pratica contrabando. Os produtos da Daslu são trazidos por sacoleiros que ainda ontem vendiam relógios do Paraguai. Bagaceirada. Bagaceiro é uma loja cobrar, no mínimo, 3 mil por uma bolsa. Uma bota custar 17 mil. Bagaceiro é ficar sendo perseguida por uma dasluzete que fala cinco idiomas e que quer vender em euros. Bagaceiro e afrontoso. Vender helicóptero? Lancha? Pra quê? Não é que fique feliz com a desgraça dos outros, acho até meio sem moral achar bom que um comerciante tenha se ralado. O que acontece é que dói no estômago ler as coisas que se liam, esse frisson babaca por causa de uma loja que é o elogio do novo-riquismo. Quem quer usar grife essa ou aquela e tem grana pra tanto, aproveita que vai dar um pulinho em Paris ou em Nova York, mas não compra em butique-armadilha. Pobre quando come melado, se lambuza, não é isso? Chique, chique mesmo, no duro, é quem nunca entrou na Daslu. Quem tem sabe quanto custa e onde comprar. Que bom que ferraram a Daslu.
Quarta-feira, Julho 13, 2005
Por que escrever?
De repente, começou, tudo ao mesmo tempo: de norte a sul, escritores se queixam da pindaíba em que vivem. Já ouvi neguinho dizendo que tem de pegar dinheiro emprestado pra completar o mês. Um é funcionário público, outro é tradutor, outro é jornalista, e por aí vamos, profissões que não enriquecem ninguém, que dão o mínimo que se precisa. O que ninguém quer é deixar de escrever. Impressionante: não mata a fome, não dá dinheiro, mas ninguém abre mão. Talvez porque seja fascinante, porque o mundo vira mais mundo quando se escreve. O Salman Rushdie, que deu entrevista no Metrópolis (onde o Marcelino Freire fez matéria sobre Paraty, ótima, por sinal), enfrentou um jornalista que perguntava a ele se a ameaça de morte que pairou anos sobre sua dele cabeça não o atemorizou. Ele respondeu que não, que estava tão ocupado escrevendo que não tinha tempo de se preocupar com a sentença de aniquilamento. Vejam bem, senhores: a literatura derruba até o medo. Toma!
Terça-feira, Julho 12, 2005
Dêem um pulo lá
O pessoal quer saber mais a respeito do movimento Literatura Urgente. Lá no eraOdito, blog do Marcelino. Aqui.
O muro
Alguém pichou com tinta podre e com rabiscos fedidos a placidez do muro azul de minha casa. O cara que fez isso, um menino, decerto, tem ódio. Não tem ódio de mim, que ele não me conhece, que moro numa casa longe do lugar onde ele mora. Ele odeia meu bairro. Pior: ele odeia a planície calma de um muro azul. O sujeito não se agüentou de ódio, odiando a lisura honesta de uma parede azul. O que meu muro fez contra o menino? O que pode um muro fazer de mal a alguém? Nada. O cara odeia tudo, e pichou meu muro. O melhor é que meu muro não odeia ele. Meu muro não odeia ninguém e suporta a sujeira. Pensando bem, meu muro tem grande senso de humor. Acredito que as coisas ditas com humor são mais convincentes. Escrever com soda cáustica na ponta dos dedos, regurgitar um ácido queimante, encharcar de bile o texto? Pra quê? Para ser igual a todo o mundo, que o ódio é matéria universal. Qualquer imbecil odeia. Quando o texto ri dele mesmo, quando sorri da miséria do leitor e do pobre do autor, matéria da mesma matéria, afugenta-se o ridículo. Só os imbecis não têm sentido de humor. Ainda o assunto da matéria de Veja. Na boa, não precisava tanto ódio no texto. Faltou senso de humor para dizer. Com humor, é mais convincente. E menos chato. O muro da minha casa é mais esperto que todos nós juntos. Peguei tinta e pincel. Forrei o chão com jornal. Devagar fui tirando do muro o que não era muro. Ele, o muro, deixou que eu fizesse o curativo bem quietinho, parado, se ajeitando ao pincel. Confiava em mim, o muro. Quando eu acabei, a ferida do muro tinha curado. Mais fácil curar ferida de ódio em muro que em gente.
Chato, isso. Há várias pessoas envolvidas no mundo literário falando do artigo publicado na Veja desta semana, assinada pelo gaúcho Jerônimo Teixeira, sobre o Movimento Literatura Urgente, tocado por gente como Ademir Assunção e Marcelino Freire. Jerônimo baixa o pau, e deve ter lá suas razões. Agora: dizer que para escrever um livro basta "papel e um lápis" é coisa de siderado. O Jerônimo já escreveu e já publicou, As horas podres, uma novela em que resolve acertar as contas com a cidadezinha em que nasceu. Sabe que é preciso mais, bastante mais, do que isso, de material escrevente. Muito embora ele seja contra o mecenato oficializado com as contas da naçaõ (ai, ai, ai), e como muita gente é contra, ele SABE que é necessário um plus a mais adicional e extra. Não precisamos de malas de dinheiro, a grana é muito menor do que o alardeado (se pede mais para ganhar menos, já se sabe). Numa coisa, que o Jerônimo não soube dizer direito, preferindo a frase com torções e duplos sentidos, e na qual ele acredita, há muuuuuuuita verdade: é preciso formar um público leitor. A gente tem que ter gente que consuma livros, que livros sejam vendidos, e que uns pilas pinguem na conta. Esse é o ideal. Mas quem conseguiu? Ele cita a JK Rowling, do Harry Potter, "mais rica que a rainha da Inglaterra", como exemplo. Não, guri, não é assim. Não dá pra ser assim.
Segunda-feira, Julho 11, 2005
O grande enigma
Comecei nova turma de oficineiros hoje. Turma boa, gente muito parelha, prometendo diversão. Lá pelas tantas, uma moça da classe perguntou: — Como é que se faz isso? Não entendi a pergunta: o que era o “isso” de que ela falava? — Escrever, isso — ela me respondeu, apontando para um pedaço de papel com a ponta da bic que usava. Eu respondi: — Não sei. Não entendi a minha resposta. Aliás, o bom de tudo é isso, que "isso" significa o exercício de fazer sempre novas perguntas. O que nunca muda são as respostas. Alguém aí sabe a pergunta certa, pelamor?
Sexta-feira, Julho 08, 2005
Funcionalismo só funciona para os funcionários?
Hoje fui fazer cabelo. Dar um upgrade na auto-estima, que anda meio em baixa. Fui lá com a Andréa Santana, da Sexton, que me entende a cabeça e a alma, e falei pra ela que meu cabelo estava horrível, com os brancos dando o ar da graça, o que era pintado virado numa coisa desbotada. Para dar mais ênfase a minha queixa, comparei: --- Me sinto uma funcionária pública. Uma senhora, que estava por perto, pulou na jugular: como assim, o que tens contra o funcionalismo? Eu pedi calma. E expliquei que me sentia uma funcionária pública no sentido de, sei lá, aquelas mulheres que têm de esperar o salário no fim do mês para poder pintar os cabelos. Mas daquela funcionária pública que anda de calça fusô e blusão de lá, com sapatinho de salto meio altinho, unhas vermelhas, anéis de ouro, tomando cafezinho. Ela até que entendeu, ou fez que entendeu. É que não me entendi muito bem. Além de me sentir vigiada, porque existe uma patrulha de politicamente corretos que é uma abominação, também quis saber de mim mesma o que eu tenho contra os funcionários públicos. Ué, virando e mexendo, não tenho nada contra quem ganha seu dinheirinho com o suor do rosto. Mas é que eu acho que funcionário público não sua. Não sua, porque não se mexe. Não se mexe, porque não tem o que perder. Por que tantas criaturas se alinham para as provas de qualquer concurso público? Quem na vida sonhou em ser gari ou oficial de justiça? Quem tem fantasias de ficar carimbando documentos numa repartição ou num banco? O negócio é esse, eu acho, de entrar para o corpo do Estado para ter uma vida garantida, com tempo presumível para fazer o que se gosta (que pode ser jogar canastra ou ficar na frente da tv), com direito a aposentadoria integral. Eu nunca me habilitei a um serviço público. Idiota de mim, pensando bem. Mil vezes idiota. Mas, afinal, o cabelo voltou para casa revigorado. Eu e ele, o cabelo, vamos enfrentar a batalha de expediente em tempo integral. Vamos escrever. Alguém aí é funcionário público? Algo contra ou a favor?
Quinta-feira, Julho 07, 2005
Salam
Todos riam de Ibn Musra. Todos. Toda a família já tinha se explodido. Ele não: sempre dava errado. Ou era o pavio ou era a dinamite ou era o detonador. Não tinha estouro, ninguém morria. Todos riam de Ibn Musra, o homem-bomba apagado. Mais riram quando Musra se empregou num restaurante em Nova York. Hoje, três mil pessoas que almoçaram no Lamb´s, na Broadway, morreram envenenadas. No bolso de um cozinheiro árabe, também morto, um bilhete: "Riam agora, seus panacas". O FBI atribui o atentado à Al-Qaeda. Os restaurantes americanos fecharam as portas por tempo indeterminado. (Publicado em Contos de Bolso , publicado pela Casa Verde, no qual participam 43 autores. A propósito do atentado em Londres, hoje.)
A bênção e a extinção dos comentários
Já tinha falado que o Marcelino Freire esteve aqui em Porto Alegre. Ele, que foi confundido com um cacique xavante em Passo Fundo (genial, essa, com direito a foto e tudo o mais, inclusive errata), agora teve direito a mais uma confusão. Luiz Paulo e eu acompanhamos o Marcelino até a RBS TV, lá no morro, onde ele ia dar entrevista. Ao chegar, eu disse para a Valéria, produtora do Estúdio 36, do Túlio Milman, talentoso entrevistador e rica criatura, que o Marcelino Freire tava lá, tudo em cima, taí teu entrevistado, guria. Ela, também uma rica e amorosa criatura, captou a informação e, dando de vista num papelzinho, informou que ele entrava no terceiro bloco. A gente tentou negociar: ele não podia entrar no segundo bloco, pelamor? Ela, compreensiva, disse que ia tentar mudar a posição da entrevista. Em telefonema para alguém da mesa lá de cima, perguntou se podia mudar o frei de bloco. A gente se olhou, se olhou, só nós três por ali, sinal nenhum de frei. Mas de que frei ela estava falando? Ela apontou, claro, o Marcelino. Que passou, dali por diante, a ser nosso frei. Ele entrou no segundo bloco. O frei de verdade entrou no terceiro bloco. Peçamos a bênção a São Marcelino, daqui por diante padroeiro dos negreiros, saravá. **** Ainda o Marcelino, que é bom trocar idéias quando vem alguém de fora. Ele comentou que tava a fim de tirar os comentários do blog dele, visitadíssimo, porque aquilo tava virando uma pocilga. De fato, no blog dele tem todo o tipo de baixaria, de autopromoção, de mensagem anônima e desaforada. Dá nojo. O mesmo acontece aqui neste blog, que algum anônimo já chamou de meia-boca, além de me xingar e meter o pau por causa da arenga de Passo Fundo e porque não gosta do que eu escrevo. Blog não é pra isso, doença se trata com alguém competente. E a gente faz blog, não faz penico. Tô pensando seriamente na atitude despótica. Serà que tiro os comentários?
Quarta-feira, Julho 06, 2005
Não é uma brastemp
Claaaaaaaaro que o assunto é CPI. Depois de dois dias com o Marcelino Freire, que deu oficina de contos e que pré-lançou seu Contos negreiros aqui em Porto Alegre, o mundo me chama: vai lá ver a CPI, menina. Assim se faz o destino de uma nação, poxa vida, entre o convívio com gente do bem e na platéia do espetáculo dos caras do mal. ***** Ó, na boa, mulher não se engana: o carequérrimo Marcos Valério é cara tri do mal. Além de permanecer negando tudo o tempo inteiro e não se lembrando exceto de levantar pra fazer xixi e atrasar o looooongo trabalho da CPI, o tipinho ficou com a bunda na cadeira por mais de 10 horas, fazendo cara de paisagem. Tô nem aí, não é comigo. ****** No meio da arenga, tentando levar adiante minha novela, com mil atrapalhações pela frente, ainda tenho de enfrentar a Brastemp. Pois é, a Brastemp, aquela que fabrica eletrodomésticos, dona de um dos mais arrombadores slogans da propagando universal. Pintou grana da aposentadoria do marido, vamos trocar as coisas velhas e antigonas? Compramos quatro coisas deles, três estragaram. O refrigerador, esse reestragou. Doi s problemas em menos de seis meses de uso, com direito a troca de compressor. Telefona, manda email, fala com um, com outro, a história sabida. Eu quero uma geladeira nova, que funcione. Eles querem mandar estar mandando email agradecendo o contato e estar perguntando, por telefone, se podem estar ajudando em mais alguma coisa (sem ter ajudado um ovo). O Carlos, que trabalha na fábrica, achou a solução: vai estar estendendo a garantia do produto por mais seis meses. Findos os quais vou ter que estar pagando de meu bolso a incompetência da marca. Atenção, povos: o sonho acabou, democracia virou merda no ventilador. E a Brastemp prova que não é uma brastemp porcaria nenhuma. Liberou geral. ***** Aviso aos escritores: liberou geral pra canalhada. A gente ainda tem obrigação de ser honesto e verdadeiro.
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