Quarta-feira, Agosto 31, 2005
Jabuti!
Hoje foi uma correria e uma alegria aqui em casa. Lá pela uma da tarde, meu marido, LP, vem me avisar do Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro. Pô, com meu Arquitetura do arco-íris, tirei terceiro lugar, na categoria contos e crônicas! Entrei na lista! Em primeiro lugar, ficou o Alcione Araújo, com seu Urgente é a vida (Record) . Em segundo lugar, empate triplo: Paraísos Artificiais, de Paulo Henriques Britto (Companhia das Letras), Típicos tipos, de Frei Betto (A Girafa) e Histórias Mirabolantes de Amores Clandestinos, de Edgard Telles Ribeiro (Record). A lista completa pode ser vista no cbl.org.br************ Recebi trocentos emails, torpedos, sinais de fumaça, coisital, de um monte de gente. Pô, agradeço de joelhos a amizade. Amo vocês.
Terça-feira, Agosto 30, 2005
Portugal Telecom!
Hoje, em meio a uma sessão de escritura, o telefone toca. Uma amiga avisando que eu estava entre os dez finalistas do Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira. Gritei de alegria, ainda mais quando soube que estou em seletíssima companhia. Sem demérito para nenhum autor concorrente, uma coincidência me deixa ainda mais feliz: somos três gaúchos na lista (o Michel Laub e o Amilcar Bettega Barbosa), e nós, os três, saímos da oficina de criação literária que Luiz Antonio de Assis Brasil ministra na PUCRS. Não é genial? Olhem só a lista dos finalistas: Os lados do círculo, Amilcar Bettega Barbosa (Companhia das Letras) Arquitetura do arco-íris, Cíntia Moscovich (Record) O fotógrafo, Cristóvão Tezza, RoccoHistórias mirabolantes de amores clandestinos, Edgard Telles Ribeiro, RecordSob o peso das sombras, Francisco J. C. Dantas (Planeta) O silêncio do delator, José Nêumane Pinto (A girafa) Poemas rupestres, Manuel de Barros (Record) Longe da água, Michel Laub (Companhia das Letras) Vista do Rio, Rodrigo Lacerda (Cosac & Naify)O falso mentiroso, Silviano Santiago (Rocco)
Sábado, Agosto 27, 2005
Escrito nas estrelas
Desde quando eu era deste tamanhinho, bem pequeninha, eu queria ser escritora. Não queria ser outra coisa, se me perguntassem, e tampouco sabia dizer o motivo. Mas eu queria escrever. Não só escrever: queria viver disso. Quis o destino que muito tarde eu concretizasse meu sonho: muita coisa aconteceu e eu não pude me dedicar ao que gostaria de fazer. Precisava cumprir o lado prático da existência, viver, tentar me assentar no mundo feito gente. Dei aula, fui comerciante, assessora de imprensa, revisora, desempregada — uma coisa angustiada, que não sabia pra onde ir nem como ganhar a vida. Uma coisa eu tinha feito, e isso aos 25 anos: me casei. O cara trabalhava em banco: eu ainda fazia a faculdade de letras. A de jornalismo, eu tinha conseguido terminar. Mas ainda queria ser escritora. Só que não sabia como se fazia. Daí eu fazia poesia nas horas vagas. Aos 35 anos, eu era uma poeta horrível. E minha família achava que o folclore de ser escritora era até bacana — na casa dos outros. Por essa época, busquei a prosa. E nela, na prosa, encontrei aquilo que desde sempre buscava: uma maneira de ser escritora. Joguei meus poemas no fundo de uma gaveta e comecei uma nova forma de escrita. Quando dava, com o tempo que sobrava. Apesar de todas as coisas. Minha família sempre achou uma bobagem, coisa de lunático, de gente pouco prática. Me lembro de uma reunião familiar especialmente cruel, na qual minha mãe e minha tia caíram na minha cabeça, rá, rá, rá, ela quer ser escritora e vai ganhar dinheiro como, a lunática? Eu tinha mais era que buscar uma carreira, ganhar uns pilas, ter filhos, cuidar da casa e, com o tempo, cuidar de minha mãe e do meu marido — nessa ordem. Meu marido nã precisa que cuidem dele, mas o ideal familiar era esse. Hoje eu sou uma escritora. E fico pasma que isso tenha acontecido. Incrível que, quando se cumpre um sonho, a gente custe tanto para acreditar. Vou tomar cerveja com uns amigos, comer alguma coisa e jogar conversa fora. Agora, eu tenho direito. Dane-se todo o resto. Agora, eu não acredito mais em destino.
Algumas ilusões
A crônica, linda, aí de baixo, foi enviada pelo Ruy Carlos Ostermann, o Professor. Dá pra entender o sentimento dele, não dá. Vejam que bonito. Não tenho mais ilusões, ao menos não tenho mais as ilusões que me faziam saltar de pára-quedas, meter-me em pesca submarina, participar do grupo de resgate da plataforma da Petrobras ou namorar a Michelle Pfeiffer.Romper a linha do sono e ficar lendo até amanhecer, com anotações pertinentes por cima da letra impressa, corrigindo a frase de Sartre, certamente errada, escrita às pressas, entre um uísque ou outro, no Café de Flore, com a Simone apressada, de pé, já na calçada.Fazer o cruzeiro do Mediterrâneo bebendo absinto, me apaixonando por Istambul e ficando por lá como professor de artes marciais ou tradutor do francês, mantendo correspondência com Umberto Eco a respeito de alguma coisa que ele possa se interessar.Ou então não fazer nada e ficar quieto no fundo da biblioteca desamarrando livro velho para futura restauração com páginas especiais, a maioria delas guardadas debaixo do Houaiss, gastar todo o tempo nisso, sem pressa, sem celular, ou qualquer outro tipo de angústia cotidiana.Para nada disso tenho mais ilusões de que possa fazer sem a intervenção enérgica ou insistente dos outros, os que me servem de paisagem afetiva, e arrumam a mesa, puxam o tapete lentamente, e me chamam para ler outra vez o jornal, alguma coisa que não li ou não quis ler porque eles sempre me parecem cada vez mais iguais.É bem esse tipo de ilusão que não tenho mais. Dá pra entender?
Sexta-feira, Agosto 26, 2005
Josué Guimarães
Depois de toda a discussão envolvendo o resultado do Prêmio Zaffari & Bourbon de Literatura, aviso que não falo mais nisso. Mesmo porque sou entusiasta de primeira hora de Budapeste. Só acho, e não falo mais nada mesmo, que não precisava aquele auê todo, de trazer o moço de jatinho, de ele ficar umas horinhas em Passo Fundo, de todo mundo pagar o mico de escutar que ele não sabia que o prêmio existia. Chato, isso. Eu, de constrangimento, não queria estar lá naquela hora. Mas há uma coisa que ainda não quer calar: depois de trazer o olhos de ardósia de jatinho (e se fosse o Saramago? Como ele viria de Lanzarote?), depois de anunciado o prêmio que homenageia Andersen e que levará uma menina à Dinamarca, falta saber como são os textos vencedores do Concurso de Contos Josué Guimarães, dos quais ninguém mais falou. O concurso, feito em parceria com o Instituto Estadual do Livro (sei porque fui diretora do IEL e organizamos a edição retrasada) e que leva o nobre nome de nosso querido conterrâneo, é, como disse um amigo escritor, o primo pobre da Jornada. O primeiro lugar recebe 3 mil reais e não me recordo mais o que ganham os outros dois lugares. Esses contos deverão ser reunidos em livro, junto com ganhadores de outras edições, e deve ser lançado na próxima Jornada. Ao menos, era assim que se fazia. Cadê os vencedores? Onde é que a gente pode ler um trechinho? Quem foram os julgadores? O vencedor vai poder ir de avião? Já que a Jornada tem toda a tecnologia necessária, aí vai a sugestão: coloquem, pelo menos, os contos no ar, no site da Jornada. A gente quer dar uma olhada. E honrem o nome do Josué. E papariquem, bem paparicada, dona Nydia, a doce viúva do autor. Que se honre a memória de Erico Verissimo, que é um dos homenageados da Jornada neste ano.
Terça-feira, Agosto 23, 2005
No meio da confusão em que nos metemos, sempre aparece mais um bafafá. Passo a relatar uma miudeza, mas que pode esclarecer porque, afinal, somos o que somos. Tenho dores na cervical, nada grave, mas que exige algumas injeções de antiinflamatório, para as quais recorro a uma farmácia numa avenida, a 24 de Outubro, que é meio longinho de casa, à qual chego, algumas vezes, de carro. Na frente da tal farmácia, há duas vagas destinadas a clientes, que podem estacionar por 15 minutos. Hoje, cheguei ali, apressada. Era largar o carro, tomar a injeção e carreto feito. Acontece que havia dois carros estacionados nas referidas vagas. Dei voltas e voltas, na esperança que um daqueles carros, passados os 15 minutos (quem gasta mais do que isso numa farmácia?), me desse o lugar. Nada. Foi quando, esperando em fila dupla, vi passar dois azuizinhos, que são os fiscais de trânsito na cidade — já famosos por sapecar multas por nada. Chamei os senhores e reclamei que os carros estacionados nas vagas destinadas à farmácia estavam ali fazia muito tempo. Um dos azuizinhos, cheios de razão, me veio com essa: — E a senhora acha que vou ficar controlando os carros de quinze em quinze minutos? Quem tem de avisar a gente é a farmácia. Fiquei ali parada, pasma. E, logo que consegui entrar na farmácia, avisei o gerente que ele tinha de fiscalizar o trânsito. Invertidos os papéis, meu medo é que os azuizinhos passem a aplicar injeções. **** Então é isso: quem fiscaliza o trânsito só sabe multar. Quem vende remédios deve fiscalizar o trânsito. Quem precisa do trânsito e dos remédios, reclama pra quem?
Segunda-feira, Agosto 22, 2005
Deu Chico
Luiz Paulo Faccioli, o maridão, acaba de dar a notícia: o vencedor do Prêmio Zaffari & Bourbon deste ano foi Budapeste, do Chico Buarque. O livro é, de fato, maravilhoso: sou fã de carteirinha do moço e acho que esta obra dá de dez nas outras que ele escreveu. Como os finalistas eram todos de altíssimo naipe, louve-se a premiação, que deve ter sido pautada por critérios de gosto pessoal: tecnicamente, todos, ou maioria deles, estavam em nível técnico muito semelhante. ***** Neste ano, houve auditoria do prêmio e a composição do júri foi informada com claridade e agilidade. Espera-se Chico Buarque em Passo Fundo, para receber o cheque de 100 mil, descontados 35 mil de imposto de renda. Tomara que todos os participantes da Jornada comprem o livro e leiam. Aliás, que todos os participantes da Jornada comprem TODOS os livros finalistas e leiam. ********** Ponto a ponderar: será que o prêmio não deveria incluir outros gêneros além do romance?
Sábado, Agosto 20, 2005
Esclarecimento
O rabo a que me refiro, de forma grosseira, no post abaixo, tá em ordem. O resto é uma porcaria mesmo.
Prato de lentilhas
Estávamos conversando, meu marido, o LP, e eu, depois de uma discussão, daquelas domésticas. A gente ficou pensando: moramos numa casa que é nossa, comemos e bebemos bem, obrigados, temos até um carro nosso na garagem -- já quitado e com o IPVA em dia. Surgiu, no entanto, uma pergunta: o que a gente quereria ter e que o dinheiro, se a gente tivesse, pudesse nos dar? Pergunta pra todo mundo, por inquietação minha: o que vocês gostariam de ter e que, por falta de grana, ainda não puderam conseguir? Pergunta dois: e se grana não tivesse nada a ver com a história, o que vocês gostariam de ter? Eu respondo primeiro: queria ter um Fox crossfire, preto, com todos os adicionais aqueles (sei que é viadagem, mas queria ter). Acho lindo. E uma bicicleta de aluminio, importada, fácil de subir lombas. E poder viajar ao menos uma vez por ano para a Europa --- e para qualquer outro lugar. Daria, entretanto, tudo isso que eu conseguisse com grana por sentar e escrever sem dor nenhuma. Daria a alma, melhor dizendo, por sentar e escrever aos jorros, sempre de forma perfeita. Daria o rabo por isso. O que vocês dariam?
Quinta-feira, Agosto 18, 2005
Herança
A memória de um povo é a herança de um povo. Nós nos lembramos. Leio que a retirada dos judeus assentados na Faixa de Gaza, já em sua fase final, provocou mortos e feridos. Os últimos judeus, ortodoxos, refugiaram-se em sinagogas, recusando-se a deixar suas casas. Soldados israelenses, que ontem se recusaram a invadir as sinagogas, hoje tiveram de abordar os templos e retirar à força, ainda que desarmados, os judeus que ainda resistiam. A maioria se entregou pacificamente. Um judeu, retirado de sua casa, que fica ao lado da casa de sua cunhada, fustigou o soldado israelense responsável pela operação: --- Vá lá, soldado, invada a casa dela. Pode, inclusive, violentá-la. Você deve ter ordens para isso. O soldado sentou no chão e chorou. Ele se lembrou. ******** Depois de toda a violência, todo o descalabro, todos os homens-bomba, o que vai acontecer? O impensável, que era Israel devolver os territórios ocupados, aconteceu. O impossível é que os palestinos cumpram sua parte no acordo. O impossível tem que acontecer.
Quarta-feira, Agosto 17, 2005
Foi mal
Atenção, senhores navegantes e assessores de imprensa: não comprometam as instituições para as quais trabalham. No site oficial da Jornada de Literatura, a chamada para a matéria que dá conta dos finalistas do Prêmio Zaffari & Bourbon (leia post abaixo) é a seguinte: "Chico Buarque e José Saramago estão entre os finalistas do 4º Prêmio Zaffari & Bourbon de Literatura". Não pode. A instituição organizadora do prêmio tem de zelar pela isenção. Além, claro, de ser um desrespeito para com os demais concorrentes.
Prêmio Zaffari & Bourbon de Literatura
Saíram hoje os romances finalistas do Prêmio Zaffari & Bourbon de Literatura, que concorrem a R$ 100.000. O vencedor será conhecido na abertura da Jornada Nacional de Literatura, no Circo de Lona montado em Passo Fundo. Gente muito boa concorre. E amigos do peito estão lá. A lista: Antonio Torres, O nobre seqüestrador (Record) Chico Buarque, Budapeste (Companhia das Letras) Cristóvão Tezza, O fotógrafo (Rocco) Francisco J. C. Dantas, Sob o peso das sombras (Planeta) José Eduardo Agualusa, O vendedor de passados (Gryphus) José Nêumanne Pinto, O silêncio do delator (A Girafa) José Saramago, Ensaio sobre a lucidez (Companhia das Letras) Luiz Antônio de Assis Brasil, A margem imóvel do rio (L&PM) Luiz Ruffato, O Mundo Inimigo - Inferno provisório (Record) Michel Laub, Longe da água (Companhia das Letras) Miguel Sousa Tavares, Equador (Nova Fronteira) Rodrigo Lacerda, Vista do Rio (Cosac Naify) Silviano Santiago, O falso mentiroso, (Rocco) Wilson Bueno, Amar-te a ti nem sei se com carícias (Rocco) ************ O prêmio parece estar melhor organizado neste ano, depois de uma premiação um tanto atrapalhada no ano passado, fato que não tira o mérito de Plínio Cabral, vencedor naquela última edição. Um dos maiores do Brasil, o Zaffari & Bourbon privilegia exclusivamente romances, desconsiderando outros gêneros literários. Escrevi sobre isso no dia 1º de março para a organizadora da Jornada, ao mesmo tempo em que indicava meus livros escolhidos. A resposta que obtive no dia 2 de março mostra que houve diálogo certa feita. E que os representantes do Zaffari & Bourbon vão ter de dar uma forcinha para correção de rota. Leiam a mensagem: "Cara Cíntia, agradeço-lhe as considerações críticas que serão repensadas com o júri. O problema é que o Pr~emio foi criado pela Prefeitura Municipal, sem a minha intervenção, e somente privilegia o romance. Concordo com seus pertinentes comentários. Agradeço-lhe, também, a importante contribuição com a indicação dos romances e dos nomes para o júri. Um abraço Tania Rösing"
Terça-feira, Agosto 16, 2005
Portugal Telecom
No meio da tarde, telefona o Fabrício Carpinejar, avisando que saiu a lista com os 20 finalistas ao Prêmio Portugal Telecom de Literatura. Tá lá o Fabro, tô lá eu. Mais uma porção de gente boa, o que já é a melhor notícia que alguém podia ter. No dia 30 de agosto, o Júri Nacional se reunirá para escolher os dez finalistas. Até lá, a torcida é grande. Vamos à lista: 1. Aberto está o inferno, de Antonio Carlos Vianna 2. A ira das águas, de Edla Van Steen 3. Arara bêbada, de Dalton Trevisan 4. Arquitetura do arco-íris, de Cíntia Moscovich 5. Cara e coroa, carinho e carão, de Glauco Mattoso 6. Cinco Marias, de Fabrício Carpinejar 7. Herdando uma biblioteca, de Miguel Sanches Neto 8. Lorde, de João Gilberto Noll 9. O falso mentiroso, de Silviano Santiago 10. O fotógrafo, de Cristóvão Tezza 11. O livro de Zenóbia, de Maria Esther Maciel 12. O silêncio do delator, de José Nêumanne Pinto 13. Mistérios de Porto Alegre, de Moacyr Scliar 14. Paraísos artificiais, de Paulo Henriques Britto 15. Plenilúnio, de Lêdo Ivo 16. 16. Poemas rupestres, de Manoel de Barros 17. Rua do mundo, de Eucanaã Ferraz 18. Sob o peso das sombras, de Francisco J. C. Dantas 19. Vista do rio, de Rodrigo Lacerda 20. Vozes do deserto, de Nélida Piñon
Domingo, Agosto 14, 2005
Cena de domingo
  O passarinho aí de cima esteve aqui em casa hoje. Tomou banho na fonte, como se vê.
Formiga atômica
 Pois é. Atendendo a numerosos pedidos, aí estou eu, pronta para o passeio de bicicleta. Pouco elegante, concordo, mas dá pra rir uma beirada.
Sexta-feira, Agosto 12, 2005
O presidente fala à nação
Não sou de me envolver em política. Aliás, acreditem vocês ou não, não sou de me envolver em discussões. Não gosto, cada um se arranja como pode e como dá. Mas hoje, ao saber que o Lula tinha falado à nação, corri pra ver a gravação. O que ele falou? Acusou o Zé Dirceu? O Delúbio? Quem? Onde estava todo o som e toda a fúria do nosso presidente? Onde o poder retórico? Onde a oratória? Os galões de lágrimas? Onde a exaltação à ignorância e à fome da família, que o levou ao poder? O que nós vimos foi Lula comedido, lendo direitinho, vez que outra revirando os olhinhos para respirar melhor e declinar o discurso anódino sem erros e sem tropeços. Se eu tivesse escrito a história dessa república das bananas, teriam me acusado de pecar contra a verossimilhança. Aliás, eu nem teria imaginação pra tanto.
Quinta-feira, Agosto 11, 2005
A Repúblicado rabo preso
Reproduzo abaixo o belo texto da Lya Luft em Veja desta semana. Vale a pena. A Repúblicado rabo preso
Paira no ar uma sensação de que tudo poderá se resolver nos velhos moldes doPIP, o Partido do Interesse Próprio. Cautela,senhores: não se pode enganar muita gentepor longo tempo com tamanha desfaçatez" Senhores, andamos falando demais, e mal. Usamos frivolamente termos perigosos e abusamos das palavras de respeito. Exageramos nos clichês e nos rótulos, geralmente burros e pobres, embora às vezes necessários – como tantas coisas pobres e burras que é preciso suportar neste mundo. Usar o termo "elites" requer muito cuidado. É temerário empregá-lo como se falássemos de uma entidade abstrata, bicho-papão para assustar – não criancinhas, mas os tolos. Usamos a palavra sem sequer a definir direito. O conceito "elite" significa "o melhor, os melhores", o que não envolve necessariamente dinheiro nem sede de poder, muito menos arrogância, mas decência, por exemplo. Honradez, pudor e consciência, por exemplo. Boa educação e cortesia também, não vamos esquecer. Nada disso é privilégio de ricos e poderosos. O que deve nos assustar é o predomínio de um tipo de ralé: a da hipocrisia, da ambição e do cinismo, que passa por cima do cadáver – não da mãe, mas do povo e da pátria. Nós, a gente brasileira, não somos mais tão bobos assim. Um populismo tardio e a velha demagogia barata ainda tentam seduzir o povo, fingindo que o protegem para melhor o explorar. Porém, acho que falas delirantes, acusações falsas e auto-elogios pueris enganarão cada vez menos os mais pobres e menos cultos, que merecem algo bem melhor. Talvez ainda os contaminem alguns conceitos superados, fazendo-os pensar que estão sendo ajudados, quando apenas os manipulam. Mas esta crise deve nos tornar mais lúcidos. Esperemos que sim. Ilustração Atômica Studio Paira no ar uma – espero que passageira – sensação de que tudo poderá se resolver nos velhos moldes do grande PIP, o Partido do Interesse Próprio. Fala-se em tentar estabelecer pactos dos quais nós, comuns mortais, em outros tempos nada saberíamos. Mas hoje em dia, com políticos honrados, jornalistas íntegros e pessoas conhecidas ou anônimas avisando, ninguém mais vai poder dizer "Eu não sabia". Por isso tenho esperança de que os atuais boatos de acordos e arranjos para que todo mundo se acomode e continue se locupletando em paz sejam apenas boatos. Cautela, senhores: não se pode enganar muita gente por longo tempo com tamanha desfaçatez. Somos um país pouco desenvolvido, com muita gente ainda desinformada e por isso facilmente manobrada, mas somos um povo honrado. E os honrados podem se manifestar e agir, na indignação da integridade – privilégio de poucos. "Blindar" um tumor não ajuda na cura do corpo, ao contrário: é preciso refletir bem nisso. Que a dolorosa crise propicie uma grande mudança, servindo para crescimento e esclarecimento, novas tomadas de posição, e um recomeço positivo. Depende de cada um de nós. E, à medida que os crimes forem comprovados, que sejam varridos os elementos maus de todos os partidos, e eliminados de seus cargos os corruptos, os incompetentes e os omissos – que são seus cúmplices. Caso o que deveria ser rigorosíssima investigação de dinheiros mal ganhos e mal aplicados (portanto de corrupção) acabe numa ciranda geral, em que os enganadores dançam segurando o rabo do vizinho, senhores, afundaremos todos juntos num mar morno e de odor suspeito. De lá não se retorna fácil. Se a verdade não for perseguida e as conseqüências honestamente tiradas, vamos naufragar, sim: cúmplices do cinismo que vai recobrir esta boa terra – enquanto o povo trabalha com salários indecentes mas paga impostos, acredita em promessas mas morre nas filas, e nossos jovens deixam um país que não lhes dá estímulo, para eventualmente morrer de forma miserável em terra estrangeira. Não é hora de falar de esquerda, direita, centro, elite ou povão, termos caducos e mofados. Falemos da grande faxina moral, judicial e institucional que deve estar começando, sem a qual seremos meros sobreviventes. Todos nós, os enganados e os enganadores, seremos os humilhados habitantes da República dos Rabos Presos. Se isso acontecer, condolências, senhores.
Terça-feira, Agosto 09, 2005
Zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz
 Finalmente, depois de longo esforço higiênico, a gata dorme.
A banhista
  As três imagens aí de cima foram capturadas recenzinha. Cida, a gata de casa, toma banho e se prepara para o descanso. Reparem na seqüência. Não é um capriho só?
Segunda-feira, Agosto 08, 2005
Lygia & Adriana Lisboa
Uma ótima notícia chegou por aqui nesta tarde fria de Porto Alegre. A escritora Adriana Lisboa acaba de ganhar o Prêmio Fundação Bunge, antigo Moinho Santista, que está completando 50 anos de existência. Este ano, na categoria Vida e Obra, venceu Lygia Fagundes Telles, e na categoria Juventude (para escritores com idade até 35 anos), a Adriana. A entrega será no dia 26 de setembro, no Palácio dos Bandeirantes, pelo Governador do Estado de São Paulo. Instituído em 1955, o Prêmio Fundação Bunge é considerado um dos mais importantes estímulos à produção intelectual brasileira. Desde sua criação, já homenageou mais de 130 personalidades consagradas de diversas áreas das artes, letras e ciências, como Carlos Chagas Filho, Aziz Nacib Ab´Saber, Jorge Amado, Miguel Reale, Raquel de Queiroz, Paulo Autran, Maria Bonomi, Oscar Niemeyer, Hilda Hilst, entre outros. Não é legal? Quem avisou foi o justamente orgulhoso marido da Adriana, Flávio Carneiro, crítico e professor, que acaba de lançar O país do presente.
Sexta-feira, Agosto 05, 2005
Hipocondríacos do mundo, uni-vos!
A hipocondria, esse pânico ritualizado. Quem duvida, e há quem duvida, que os judeus têm o monopólio da dor no mundo, é porque ainda não assistiu um judeu em ação. Porque os judeus ensinam a hipocondria, são todos doutores na matéria, e uma consulta médica é um inferno --- antes, durante e depois. A mãe judia, a minha, foi consultar o cardiologista. Foi sozinha, que nenhum dos filhos podia acompanhar, mesmo porque era consulta de rotina. Exames. Colesterol alto, pressão alta. O médico prescreveu remédios e mandou que ela voltasse para novo exame clínico dali a duas semanas. Ou pouco mais, ou pouco menos do que isso. Acontece que, nos dias que se seguiram à consulta, a mãe não sossegou: por que era que ela tinha mesmo de voltar ao consultório? Tentei argumentar que era pra ver se os remédios tinham surtido efeito, se a pressão e o colesterol tinham baixado. Ela não se aquietou: e se houvesse alguma coisa que ele não quisesse dizer a ela, que estava sozinha? Sozinha, sem nenhum dos filhos pra acompanhar — e me atirou na cara o descaso. A pergunta ficou martelando e martelando. E martelou ao ponto de eu me sentir uma carrasca do Holocausto, que tinha mandado a mãe pro médico sozinha. Tentei me convencer da maluquice, tentei mostrar a mim mesma que era tudo uma doideira. Até que EU ME CONVENCI de que havia, sim, algo de errado com o materno coração. O resultado foi esse: ligar numa sexta-feira à noite para o celular do cardiologista. Que, numa elegância de dar nos dedos, me garantiu que a mãe só tinha pressão alta e colesterol alto e que tinha saído do consultório com a receitazinha do remedinho. Escrevo isso aqui e agora para me garantir de nunca mais voltar a fazer essa cacaca. E para me lamentar: quem tem uma mãe judia tende a ser mesmo louco de atar. Grande doutor Alcides Zago, que tem aquilo que nunca deve faltar a um médico: uma paciência de jó.
Jabuti à vista
Depois de muita espera, saíram os finalistas do Jabuti 2005. Tenho prazer e orgulho, que não disfarço, de estar entre os finalistas de contos/crônicas, com meu Arquitetura do arco-íris. Uma alegria, que já experimentei em 1996, quando meu livro de estréia, O reino das cebolas, ficou entre os 10 finalistas. Ainda mais alegre, porque estou em ótima companhia, como o Alcione Araújo, Amilcar Bettega Barbosa, o Paulo Henriques Brito e o Edgard Telles Ribeiro, entre outros. Quem quiser dar uma olhada no resultado, pode acompanhar através do site da Câmara Brasileira do Livro
Quarta-feira, Agosto 03, 2005
O rabo abana o cachorro
Enchi o saco da CPI. Vi Zé Dirceu ontem, um pedaço, antes de ir com o Alberto Mussa, que falava na Livraria Cultura de Porto Alegre. Uma graça, o Mussa, com o perdão das aliterações. Autor de O Enigma de Qaf, que deve ser lido e entendido como ótima literatura. Aliás: Tenho dado uns bordejos por aí, visitando sites de escritores, vendo como eles estão e andam. O que mais me chama a atenção são os depoimentos de autores jovens, que têm uma vida atribulada e que ainda não souberam encaixar a literatura na existência. Ou que fizeram da literatura toda a existência. Daí enchem a boca para regrar a vida literária de seus pares, se fazendo de régua para o mundo. Li o blog de um novel que diz que não entende como um autor pode sofrer escrevendo, além de pensar que livro de contos não é legal, porque tem vários contos publicados na Internet — quem quiser ler os contos do jovem, que fique catando no Google. Peraí: agora é o rabo que fica abanando o cachorro. Cada um tem um jeito de encarar a coisa, cada um tem uma maneira de fazer sua literatura. Cada um tem, inclusive, um gênero pelo qual tenha maior apreço. Eu só uma vovó, comparada à petizada, mas ainda tenho o direito de achar alguma coisa. E eu acho que escritor pode sofrer, sim, pode escrever conto, romance ou poesia. Tudo desde que seja bom.
Segunda-feira, Agosto 01, 2005
Mandrake
Ainda o assunto resenha/crítica literária versus literatura. Na Veja desta semana, uma resenha do Jerônimo Teixeira diz que o novo livro do Rubem Fonseca não vale a pena. E argumenta, dando provas do que diz. A frase final da resenha, no entanto, dá um sentimento ruim no leitor: "Rubem Fonseca está envelhecendo mal". Não li o livro do Rubem Fonseca, mas até creio que ele pode ter errado a mão, como qualquer um pode errar, a qualquer tempo, a idade não imuniza ninguém, tampouco autoriza alguém a dizer besteira. O que não dá pra crer é que um autor como ele, que assina Feliz ano novo, por exemplo, esteja "envelhecendo mal". Sem querer lamber as botas do RF, de quem sou fã de carteirinha: autor algum, que tenha no currículo pelo menos duas jóias, envelhece mal. Ninguém pode dizer isso de ninguém. É deselegante. É feio, é falta de educação. Se a produção do autor não condiz com seu passado, que ao menos se respeite os cabelos brancos. Um pouquinho de decoro e de contenção, por favor, Jerônimo, não faz assim com um cara que faz parte do nosso massacrado patrimônio.
Literatura e um pouco de jornalismo
O escritor Paulo Scott, responsável pelo site Sanduíche de anzóis, retoma o assunto sobre as resenhas literárias, citando, inclusive, um trecho de um post meu sobre o assunto. Não que eu tenha cercado a discussão nas malhas da verdade, longe de mim, mas um pouquinho de experiência, com base em coisas que já vi (algumas coisas, espero nunca mais ver), pode ser uma pequena bússola. Equivocada, desgovernada, sim, mas que, aqui e ali, mostra o caminho. Com relação à matéria que deu a partida na discussão, publicada na Veja e que espinafra o Contos negreiros, de Marcelino Freire, repito o que já disse: não vale a pena ficar chutando cadáver. Se o resenhista crê que o livro não vale o papel em que foi impresso, que não gaste tempo e mais papel para desancar. O tempo, sábio tempo, esgota o assunto, e o livro, se não prestar, é esquecido. Em segundo lugar, ainda sobre o mesmo tema, reparto o que penso com quem acreditar que minha crença merece ser repartida: não se devolve nem se responde resenha negativa. Isso porque o jornalista, e qualquer um, tem o direito de não gostar e expressar sua opinião. Cada um na sua. As páginas de jornais e revistas não são lugares para bate-boca. Se alguém pisou na bola e foi além do bom senso e da elegância, que esse alguém vá sozinho a seu destino. Não precisa companhia. Detratores da obra alheia há muitos. Chega a encher o saco ver tantos dispostos a virar pedra, quando nem chegaram a ser vidraça. Resta ao autor receber a resenha, boa ou ruim. E seguir trabalhando. De preferência, fazendo a crítica de seu próprio trabalho -- porque, mesmo um relógio parado, marca duas vezes no dia a hora certa. Baixemos a cabeça. Literatura é coisa muito séria. Não vale a pena chamar para a briga.
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