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Sexta-feira, Janeiro 20, 2006

 
Faz tempo que não venho aqui. Envolvida com trocentas coisas. Hoje, escrevi um pedacinho de texto, que deve entrar no novo livro, Cartas à mãe.
O post que se segue pode vir a ser um pedacinho do livro. Dependendo dos comentários que vocês, meus amigos, me deixarem. Me falem algo?
Beijos e desculpas pela ausência.


"Mamãe, hoje faz um mês que cometemos, meu marido e eu, aquele ato de insânia: adotamos em casa um cachorrinho. A senhora sabe e acompanhou: uma vizinha da rua trouxe o bichinho, enjeitado de uma casa na qual as pessoas não puderam ir muito longe no amor. Nós não queríamos mais animais na casa, a esperança era da que a senhora, eternamente sozinha, pudesse amar — ao menos o cachorro. A senhora não pôde e não quis o cãozinho, sempre temendo as perdas, sempre trocando a miséria de seus afetos na moeda banal do melhor não ter.
Meu marido é um coração-de-manteiga, e hoje Efraim — esse é o nome do novo mascote — é mais um morador da casa. Apesar de, ainda sem saber direito onde é o banheiro, fazer xixi e cocô na sala e nos quartos. Efraim vive em pé de guerra com a gata, mas os dois já se vão habituando. O bichinho revelou-se um fuzarqueiro de marca: não pára quieto, exige atenção integral, corre e brinca como se o mundo fosse somente isso. Incansável.
Pois foi logo depois de passar um senhor pito no cachorrinho por ele me mastigar os cabos do telefone, que eu liguei para a senhora. O telefone e a senhora, felizmente, estavam funcionando.
Não posso reproduzir integralmente o diálogo que tivemos. A senhora se queixava de que não tinha dinheiro para pagar não sei que contas, que não era justo, depois de tudo o que passou para nos criar e nos manter, e por aí vamos. Eu caí na asneira de rebater. A conversa que se seguiu foi mais ou menos o que segue.
— Mamãe, a senhora tem tudo para viver bem. Só não vive porque não quer.
— O que você está me dizendo?
— Estou dizendo o óbvio: a senhora tem várias propriedades, que podem ser alugadas e render bom dinheiro.
— Não me incomode. Estou com dor de cabeça. Parece que vai explodir.
— Mamãe, a senhora quer que eu faça alguma coisa?
— O que você quer fazer?
— Algo pela sua dor de cabeça.
— Ah, agora que eu estou doente quer fazer alguma coisa. Nunca fez, não vai ser agora que vai fazer.
— Mamãe, a senhora está doente? O que a senhora tem?
— Não me incomode. Me deixe em paz. Você está me deixando nervosa. A doença que eu tenho são os filhos que eu tenho. Se eu soubesse, não teria tido nenhum de vocês três.
— Mamãe, que coisa horrível de se dizer.
— Horrível? Horrível é ter uma filha como você. Se eu soubesse que ia ter uma filha inimiga. Foi a pior coisa que eu pude gerar. Inimiga. Inimiga. Inimiga.
— Inimiga? Eu?
— Inimiga, sim.
— Mamãe, eu não sou inimiga. Só estou dizendo que a senhora pode viver bem e não vive bem porque não quer.
— Viver bem, como? Os imóveis estão imprestáveis, os apartamentos estão desalugados.
— Mamãe, a senhora administra esses bens há trinta anos. A senhora não pôde fazer nada para manter o que tinha na mão?
— Ora, não me incomode. Estou com dor de cabeça. Estou com raiva de você.
— Com raiva de mim?
— Com raiva de você, sim. Você, seus irmãos, ninguém reconhece o que eu passei.
— A senhora só fala que passou isso e aquilo, se repete e se repete. O que a senhora quer que a gente reconheça? A senhora quer que a gente erga um altar para a senhora porque rebentou seu patrimônio e acha que nós somos os culpados?
— Eu te odeio.
E bateu o telefone.
Veio-me a imagem de papai, ele a dizer, mais do que uma vez e sempre na sua frente, que tinha três crianças e uma infanto-juvenil. Uma infanto-juvenil, aliás, que, mais do que os filhos, exigia atenção integral e incansáveis cuidados. A senhora ficava embaraçada, mas nunca tinha resposta. Eu, menina, observava, querendo compreender.
Hoje eu sei que o pior sobrou para mim. Tenho um bebê-cachorro e e aquela infanto-juvenil, que papai não pôde cuidar, porque morreu aos 56 anos de idade.
Onde é que meu marido estava com a cabeça ao aceitar em casa um filhote de cachorro?
Onde é que papai estava com a cabeça ao me deixar sozinha com a senhora?"


Comentários:
Querida, bom ter você de volta! E em plena forma! Bjs
 
Pois pois Cíntia, com certeza será um livro de sucesso garantido. Gostei. Gostaria que desses uma olhada no conto que publiquei no meu blog. Teu comentário será de suma importância p/ mim.
Beijos de São Léo
 
Diferente do que tenho lido de ti, achei que poderia aproveitar mais o diálogo, reparei numa frase:

A conversa que se seguiu foi mais ou menos o que segue (essa).

SEGUE E SEGUIU me soa redundante.

abraços
 
eu confesso que caí na gargalhada, talvez porque todo mundo se identifique um pouco, todo mundo que tem mãe, cachorro... animais.rs...
 
acho que é assim que as coisas são numas horas, mas talvez a gente só tenha que pensar na verossimilhança dessas horas quando viram ficção.

saudade, amore.
 
engraçado.
 
Muito bacana...sou sua fã.Ainda choro ao ler Duas Iguais...é muito semelhante a minha historia..principalmente a maneira que se refere ao "pai"...e muito triste...como todas as mortes de gentes queridas...algumas impensáveis..inadmissíveis...como a da historia.Sempre que leio tenho vontade de escrever um final diferente...hehe Beijao e muita luz à vc!
 
Sem medo, pode arrolar para o livro.
 
Esse template causa problemas com a acentuação no Mozilla Firefox.. deve ser só um erro na declaração do "charset" no html, seria interessante arrumar isso. acessibilidade é o canal.
 
minha querida maiga me dia: porque as mães são todas iguais. será que vou ser assim um dia?

adorei o texto. bjos, nono
 
Oi Cíntia, tudo bem?

Gostei do texto.

Beijos do *CC*
 
Olá Cíntia,

Tomara que tu (sou portuguesa, posso usar o "tu", sim?) voltasses a escrever aqui, vamos esperar... O teu blog hiberna, como os ursos? :)

Gosto do pedacinho de texto, mas como me atreveria a dizer que o colocasses ou não num livro?? Só sou capaz de falar sobre livros já escritos...

Se o teu blog acordar, prometo comentar por aqui...

Vamos arranjar os teus livros, os outros além de "2 iguais", o único lido até agora, e que nos (a mim e à lian) deixou assim meio.... coisa.

Beijo.
(e da lian também)
 
oi CINTIA!
achei tua página aqui.. e maei esse 'pedacinho de texto'...
"minha mãe e eu".. idênticas! rsrsrsrss

Vou te deixar aqui meu endereço pois escrevi sobre sua visita aqui em Londrina,.,, amamos!
Um beijo!
http://samanthaabreu.blogspot.com/
 
Menina! tô sem fôlego... Que coisa linda...
Sabe que você retratou a minha mãe...Como é que pode... Somos irmãs...
É lógico que você tem que escrever, finalizar o livro!!!!! Dou todo apoio...
Mil parabéns Anamaria
 
Estamos iniciando um blog para interessados (curiosos) em psicanálise a clínica psicanalítica.
www.clinicapsicanalitica.blogspot.com
 
Ola, passei por acaso pelo seu blog. E muito legal, adorei. Pena que voce sumiu... Apareca e atualize o blog pra gente. Abracos.
 
Querida Cintia: este texto...parece que conheço este filme! Adorei.
Gosto muito dos teus textos, sempre ando por aqui e te pego em outros lugares...

Faça uma visitinha no meu blogger, tua opinião será por demais valiosa.
http://taisluso.blogspot.com

Beijos no coração
Taís
 
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