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Sábado, Setembro 02, 2006

 

Belo exemplo. O melhor de todos

Já ouvi, li e aturei gente falando mal de jornalistas e dos veículos nos quais eles trabalham. Trabalhei num jornal odiado pela maioria do pessoal dito de esquerda, a Zero Hora, de Porto Alegre. Que a Zero Hora manipulava as pesquisas de ibope, que tendenciosamente atendia a interesses pra lá de escusos, que no imbróglio do Oriente Médio o jornal tendia para uns e para outros, que no caso da CPI ocultava informações, que isso e que aquilo. Já suportei petistas, lulistas e psolistas dizendo que não lêem Zero Hora. Não lêem, porque odeiam. E odeiam sem ler. Odeiam de ouvido, de ouvir dizer. Durante a cobertura de um Fórum Social Mundial, tive medo de mostrar meu crachá e o bloco de anotações, no qual o nome do meu jornal se estampava com tipologia do tamanho de manchete. Já tive de andar de carro discreto do jornal por medo de levar pedrada. Pedrada de petista irado.
Mas quando o jornal acerta, quando um jornalista lá de dentro faz o texto mais poderoso que já li nos últimos tempos, onde estão os detratores? Em época de campanha política, David Coimbra, que tem crônica na nobilíssima página 3 do jornal, encerra o assunto. Manda pastar as discussões sobre a importância na azeitona na empada de camarão. David Coimbra hoje, dia 1 de setembro, escreve o que deveria ser falado todos os dias e sempre. Meu marido me chamou a atenção, porque hoje, sexta-feira, fiz leitura na diagonal, tocada pela pressa. Voltei ao jornal, li a crônica e ofereço a vocês. Ele dá nome e sobrenome de todos os que passaram pelo poder, nada fizeram e que, pelo voto, querem voltar. Olhem só que beleza. O email do cronista está ao final do texto. Vale a pena cumprimentar. Grande David.

01/09/2006
Estou farto!

Como é que nós permitimos essas crianças na rua? Duas da manhã, meninos com os pés descalços correndo pelo cimento frio, esmolando nas sinaleiras, como é que não nos escandalizamos com isso? Se houvesse um casal fazendo sexo ali na esquina, em cima da laje da calçada, o que é que nós faríamos? Ligaríamos para a polícia, decerto. Mas os meninos estão nas sinaleiras, as meninas vendem rosas nos bares, há crianças debaixo das pontes do Arroio Dilúvio, vagabundeando pelo Centro, e nós não fazemos nada. Esse é o grande escândalo do Brasil! Estou me lixando para a corrupção ou para o equilíbrio da balança comercial. Pouco importam o Pacto pelo Rio Grande, o Bolsa-Família que está elegendo o Lula, o fracassado Fome Zero. Não vai fazer diferença encher o país de presídios, fincar um guarda em cada rua ou construir hospitais. Porque nada, NADA é mais escandaloso do que as crianças na rua. Esses candidatos todos que estão concorrendo ao governo do Estado, será que eles não sentem vergonha? O governador Rigotto está terminando seu mandato, e cada vez há mais crianças na rua. Collares e Olívio sentaram nas cadeiras de prefeito e governador, e havia crianças na rua. E agora eles todos estão aí de novo, pedindo voto. Por favor! Por que nenhum deles fala das crianças na rua??? Por que o prefeito Fogaça não tirou as crianças da rua??? Por que não tira HOJE??? Desculpem, autoridades, mas não há mais como contemporizar. É preciso OBRIGAR a criança a ficar reclusa em uma escola 10 horas por dia. Obrigar! Até o filho da madame. Até o filho do empresário. Estou farto de todas as outras discussões, de todas as outras idéias, de todas as outras propostas. Porque são inúteis. Nada vai adiantar, nada vai funcionar, nada terá importância, enquanto houver uma única criança na sinaleira. E falta de dinheiro não é desculpa para não resolver esse problema. No interior paupérrimo da Bolívia não há crianças esmolando de madrugada, nas vilas miseráveis do Paraguai não há crianças debaixo de semáforos, nos altos da Colômbia conflagrada as crianças não cheiram loló. Para resolver esse problema só há que ter vergonha na cara. O dinheiro que há para levar astronautas ao espaço, para construir prédios públicos com piso de mármore, para equipar hospitais, para dar de comer a quem tem fome, o dinheiro que há para o bem ou para o mal, o dinheiro bem empregado ou malbaratado, o dinheiro e o esforço e as atenções todas devem ir para a educação. Estou farto. Não aceitem mais as crianças na rua. Por favor. Chega. Chega.
david.coimbra@zerohora.com.br


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