Faz tempo que não venho aqui. Envolvida com trocentas coisas. Hoje, escrevi um pedacinho de texto, que deve entrar no novo livro,
Cartas à mãe. O post que se segue pode vir a ser um pedacinho do livro. Dependendo dos comentários que vocês, meus amigos, me deixarem. Me falem algo?
Beijos e desculpas pela ausência.
"Mamãe, hoje faz um mês que cometemos, meu marido e eu, aquele ato de insânia: adotamos em casa um cachorrinho. A senhora sabe e acompanhou: uma vizinha da rua trouxe o bichinho, enjeitado de uma casa na qual as pessoas não puderam ir muito longe no amor. Nós não queríamos mais animais na casa, a esperança era da que a senhora, eternamente sozinha, pudesse amar — ao menos o cachorro. A senhora não pôde e não quis o cãozinho, sempre temendo as perdas, sempre trocando a miséria de seus afetos na moeda banal do melhor não ter.
Meu marido é um coração-de-manteiga, e hoje Efraim — esse é o nome do novo mascote — é mais um morador da casa. Apesar de, ainda sem saber direito onde é o banheiro, fazer xixi e cocô na sala e nos quartos. Efraim vive em pé de guerra com a gata, mas os dois já se vão habituando. O bichinho revelou-se um fuzarqueiro de marca: não pára quieto, exige atenção integral, corre e brinca como se o mundo fosse somente isso. Incansável.
Pois foi logo depois de passar um senhor pito no cachorrinho por ele me mastigar os cabos do telefone, que eu liguei para a senhora. O telefone e a senhora, felizmente, estavam funcionando.
Não posso reproduzir integralmente o diálogo que tivemos. A senhora se queixava de que não tinha dinheiro para pagar não sei que contas, que não era justo, depois de tudo o que passou para nos criar e nos manter, e por aí vamos. Eu caí na asneira de rebater. A conversa que se seguiu foi mais ou menos o que segue.
— Mamãe, a senhora tem tudo para viver bem. Só não vive porque não quer.
— O que você está me dizendo?
— Estou dizendo o óbvio: a senhora tem várias propriedades, que podem ser alugadas e render bom dinheiro.
— Não me incomode. Estou com dor de cabeça. Parece que vai explodir.
— Mamãe, a senhora quer que eu faça alguma coisa?
— O que você quer fazer?
— Algo pela sua dor de cabeça.
— Ah, agora que eu estou doente quer fazer alguma coisa. Nunca fez, não vai ser agora que vai fazer.
— Mamãe, a senhora está doente? O que a senhora tem?
— Não me incomode. Me deixe em paz. Você está me deixando nervosa. A doença que eu tenho são os filhos que eu tenho. Se eu soubesse, não teria tido nenhum de vocês três.
— Mamãe, que coisa horrível de se dizer.
— Horrível? Horrível é ter uma filha como você. Se eu soubesse que ia ter uma filha inimiga. Foi a pior coisa que eu pude gerar. Inimiga. Inimiga. Inimiga.
— Inimiga? Eu?
— Inimiga, sim.
— Mamãe, eu não sou inimiga. Só estou dizendo que a senhora pode viver bem e não vive bem porque não quer.
— Viver bem, como? Os imóveis estão imprestáveis, os apartamentos estão desalugados.
— Mamãe, a senhora administra esses bens há trinta anos. A senhora não pôde fazer nada para manter o que tinha na mão?
— Ora, não me incomode. Estou com dor de cabeça. Estou com raiva de você.
— Com raiva de mim?
— Com raiva de você, sim. Você, seus irmãos, ninguém reconhece o que eu passei.
— A senhora só fala que passou isso e aquilo, se repete e se repete. O que a senhora quer que a gente reconheça? A senhora quer que a gente erga um altar para a senhora porque rebentou seu patrimônio e acha que nós somos os culpados?
— Eu te odeio.
E bateu o telefone.
Veio-me a imagem de papai, ele a dizer, mais do que uma vez e sempre na sua frente, que tinha três crianças e uma infanto-juvenil. Uma infanto-juvenil, aliás, que, mais do que os filhos, exigia atenção integral e incansáveis cuidados. A senhora ficava embaraçada, mas nunca tinha resposta. Eu, menina, observava, querendo compreender.
Hoje eu sei que o pior sobrou para mim. Tenho um bebê-cachorro e e aquela infanto-juvenil, que papai não pôde cuidar, porque morreu aos 56 anos de idade.
Onde é que meu marido estava com a cabeça ao aceitar em casa um filhote de cachorro?
Onde é que papai estava com a cabeça ao me deixar sozinha com a senhora?"