Um monte de gente adorável escreveu. Obrigada por terem escrito e me chamarem de volta.
Volto a este blog amantíssimo depois de longa ausência. Estava acabando um livro, tentando que ele não acabasse comigo. Ao sair da torre de marfim, o mundo estava de ponta-cabeça: o Brasil tinha dado vexame na Copa, sanguessugas chupavam onde não tinha mais uma gota de sangue. E, então, o Hezbollah deu o ar de sua graça, o Hamas deu o seu, idem — e dá-lhe guerra no Oriente Médio.
O pior dessa guerra, mais um capítulo de coisa antiga, é a quantidade de emails que tenho recebido. Emails nada simpáticos. Uns querem matar os judeus do mundo, outros querem acabar com Israel. Outros falam (de novo!) na conspiração sionista para dominar o mundo, usando, claro, os meios de comunicação e os bancos, privilégio dos do pó do deserto. Estou de saco cheio.
Cresci e fui educada (bem ou mal, não importa) numa família judia. Para mim nunca me disseram que nosso plano era dominar o mundo, nem dominar coisa nenhuma, além de um idioma estrangeiro e regras de gramática. Nem nunca me disseram que o dinheiro que eu ganhasse por meio de meu trabalho era para sustentar o Estado de Israel ou sustentar qualquer coisa estranha à minha família. Muito menos que devíamos sustentar uma mentira, que era a do Holocausto, para manipular a opinião mundial ou coisa parecida. Eu e todos da minha geração e todos que vieram antes de mim não fomos avisados que o mundo seria nosso e que fazíamos parte de um complô milenar expansionista e diabólico. Bem pelo contrário. Para mim, avisaram que eu construísse minha vida e que não incomodasse os outros. Que não odiasse. Que não roubasse, matasse ou cometesse qualquer ato que viesse a me constranger e envergonhar. Eu tinha mais era que estudar e ser boa naquilo que eu escolhesse como profissão e como meta de vida.
Fiz o melhor que pude, o que não foi muito. Mas fiz. E não cometi nada que afrontasse a humanidade.
Por quê, então, recebo emails que dizem me odiar?
Recebi uma correspondência de uma moça, acho, que se chama Elenara Cariboni. Era uma mensagem tipo spam, avisando que todo mundo fosse ao site dele para votar pela aniquilação do Estado de Israel. Pedi à moça que me retirasse de sua lista de destinatários, que eu não queria estar metida numa corrente de ódio, que tento defender a justiça e as idéias democráticas (mesmo que o conceito de justiça e democracia, esses eu coloque de vez em quando mais para perto de mim). A moça me respondeu que ela também defende o que eu defendo e que era “brasileira afrodescendente palestina”.
Dei a réplica, perguntando a ela a causa do ódio e a explicação para a autodefinição dela. Uma brasileira afrodescendente palestina? Mas que raro.
Sabem o que ela me respondeu?
Nada.
Então é isso. No momento em que me disponho a conversar, o ódio se retrai e conversa somente com seus pares: é assim que o ódio se alimenta. Explicações, a gente dá para o porteiro.
Causa espécie esse chute e, depois, a retirada do pé que deu o golpe. O Estado de Israel é a garantia que temos, todos os judeus do mundo, de que há uma pátria espiritual. Por isso, defendemos, embora nem sempre concordemos. Sou brasileira, gaúcha, amo esta terra que acolheu meus antepassados, que fugiam de pogroms — que não foram inventados. Mas também sei que, de repente, um bando de doidos bate num rapaz judeu num bar da cidade de Porto Alegre e quer bater em todos os judeus. O ódio desconhece a lógica e a própria humanidade.
E essa gurizada que surge agora, que diz que o Holocausto é invenção, que a tatuagem com números azuis que a gente vê no braço de pessoas de mais idade é lenda, fica aí, dizendo e fazendo barbaridades. Chutando.
Estou de saco cheio. Meu passado é o de uma gente que ralou e se mexeu para ter um futuro melhor. Para que eu estivesse aqui, agora, escrevendo o que escrevo.
Por que tanto ódio, meu Deus?
Faz um frio de rachar aqui em Porto Alegre. De renguear cusco. Mientras tanto, enquanto isso, descobri uma matéria genial assinada pelo Flávio Carneiro, na revista Idossincrasia, do Portal Literal. O Flávio faz uma análise da presença das mulheres na nova ficção brasileira. Lá estou eu entre as meninas que surgiram nos anos 90. Gente muito boa nisso de escrever, e eu no meio, que o Flávio é generoso e não esquece ninguém. Recomendo a todos que conheçam o portal e que dêem uma olhada na matéria. O link tá
aqui.