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Sexta-feira, Setembro 22, 2006

 

5767

Começa hoje de noite o ano judaico de 5767. Só para desejar a todos -- todos mesmo -- um Ano- novo cheio de coisas boas.
Paz.


 

Gatinho on-line

A revista IstoÉ Gente pediu e eu topei a brincadeira. Escrever um texto sobre o Thiago Rodrigues, jovem ator, lindo. lindo, que figura entre os 25 homens mais sexies do Brasil. Quem quiser dar uma olhada nas fotos e textos, aqui.
E tô virando especialista em textos curtos sobre homens bonitos. No ano passado, foi a vez de Cauã Raymond e Felipe Dylon. Dá pra distrair os olhos uma beirada.


Quarta-feira, Setembro 20, 2006

 

Ratzinger contra o Islã

Andei um pouquinho por aí, dando uma olhada no que dizem os sites ditos de esquerda a respeito da pendenga que envolve a fala do papa Bento XVI, aquela que tanto ofendeu os muçulmanos. Não achei nada. Ninguém, que antes esbravejava e reclamava de Israel e do tal imperialismo, levantou-se para defender os ofendidos.
Na boa: se antes somente os judeus sabiam o que era ter terroristas no encalço, agora o terror e a insânia se espalharam, alcançando não mais uma minoria, mas uma gigantesca multidão. O próprio papa é o alvo. O Vaticano virou as torres gêmeas.
Quando o miolo do ocidente vira alvo preferencial dos fanáticos, todo mundo se cala. E até um maluco chargista brasileiro, que diz ser perseguido pela direita isralense, parece não ter nada para dizer.
Meninada, onde estão vocês? Não chegou a hora de defender o Islã contra a ameaça "nazista" e "anti-islâmica" do Vaticano?
Pimentar no Orkut dos outros é colírio, né?
E os fundamentalistas que vão catar coquinhos. Liberdade só existe para afrontarem o Lado de Cá.
Vou comemorar o 20 de setembro, data da gaucholândia. Ganho mais.


Sexta-feira, Setembro 15, 2006

 

Política de disciriminação e estupidez

No início, Heloísa Helena chutou o balde e deixou o PT. Depois, vários outros "quadros", como eles gostam de se chamar uns aos outros, deixaram o PT, desiludidos com a roubalheira generalizada. Agora, bem, agora. Lula vai ser reeleito, como se nada fosse.
Em plena campanha presidencial e para deputados estaduais e federais, a falta de vergonha continua a imperar. Um candidato a deputado estadual do PSTU resolveu propor o fim do Estado de Israel.
Hein?
Repito: um candidato a deputado estadual, aqui do Rio Grande do Sul, propõe o fim do Estado do Israel. Porque Israel, segundo ele, seria a ponta-de-lança americana para dominar o petróleo da região. E segue com um legítimo samba-do-crioulo-doido.
Os planos dele para o cargo de deputado? Não existe. Ou melhor, só existe um: abaixo Israel.
O que faremos com um deputado estadual cujo programa se fixa no Oriente Médio, sem noção alguma do que está falando? E está postulando novamente o cargo, porque tomou pau feio na eleição passada. Mas se vão reeleger o Lula, por que não podem eleger um siderado?
Quem quiser assistir ao vídeo do deputado, que nada sofreu do TRE, embora o teor discrimatório e racista, clique aqui.


Quarta-feira, Setembro 13, 2006

 

Todo

Ontem, dando uma passada no super pra comprar ração para a gata, encontrei a Necka Ayala. A Necka é música, canta e compõe, toca um violão que nem te conto, mora aqui perto de casa, num apartamento que ela e a Rô alugam. A Necka me beijou, me afofou, me apertou de saudades. Fazia tempo que a gente não se via. Ela acaba de lançar um cd, Todo.
Hoje, recebi um email dela. Comentando o post que publiquei aqui no blog sobre a indignação do jornalista David Coimbra com a miséria das crianças de rua. É difícil explicar o que ela escreve, do jeito que ela escreve. Por isso, com a autorização dela, publico a mensagem enviada.
Leiam. Eu já li umas três vezes. Dá pra gente aprender que a gente fala demais e faz de menos.

Eu ia começar explicando o motivo. Mas deves saber que nem sempre há motivos pra gente querer falar com alguém. Te vi ontem, dei uma visitada no teu blog agora há pouco, li a indignação do Coimbra a respeito das crianças de rua e bastou pra querer falar contigo. Eu escrevo recortadamente - não liga. Jefferson.Devia ser tipo 19h duma tarde qualquer. Tocou o porteiro eletrônico sem aviso prévio, o que eu detesto: detesto visita que não avisa que vem, a casa fora de ordem, fogão em pleno ofício, coisa assim. Mas atendi. Veio a voz dele: oi, tem alguma coisa pra comer? Pedi que esperasse, fui ao local onde aqui se guarda tudo que se pretende comer ainda e desci. Um guri loiro de olho azul de uns 11 anos. Jefferson. Entreguei, dei tchau e subi. Dia seguinte, idem. E assim por meses. Acabei sabendo que ele estava fora de casa, fugido do namorado da mãe que batia descaradamente na cara linda dele. Ex-colegial, ex-família, ex-bairro e colegas. Não sou de fazer perguntas, mas quando ele quis falar, falou. Acabei por perceber que já havia rotina nisso: eu já conferia mais cedo, de manhã, se haveria o lanche do Jefferson. Se não tinha, saía pra buscar alguma coisa. Já comia eu também com hora certa, o que me fez muito bem, diga-se. Quando vi, num surto de TPM, estava agradecendo a Deus pelo filho-pronto que recebera, sem ter precisado gerar, esperar, chorar, adivinhar traços de família, rezar por perfeição física. Um filho sem as prováveis exigências de um, com hora para ver e hora de devolver pra vida. Perfeito! Minhas amigas já conheciam, já o viam na rua e diziam: ô Neca, vi o Jefferson hoje! Virou estação, consegui abrigo, moleton, meia grossa, depois bermudas, camisetas sem manga, virou o ano e ele vindo sempre, pontualmente a mesma hora. Nunca pediu dinheiro. Só comida. Fizemos um acordo que eu descia com o prato e o (já) copo de Nescau que eu nem tomo, e ele deixaria tudo sobre a caixa do correio. Quando a Ro subia, trazia tudo e eu lavava e deixava secando até o dia seguinte. Eis que um dia de outono do ano seguinte, toca o porteiro certinho na hora, e ele diz: ô tia, tu tens umas moedas pra me emprestar? E eu nem tinha. Busquei algumas nos bolsos dos casacos, peguei o lanche pronto e desci. Abro a porta e tá ele ali, cheio de sacolas do Zaffari penduradas, amarradas com tudo que eu tinha dado. Pronto pra viagem. Perguntei a ele qual era e ele contou que o padrasto estava na descendo a Plínio atrás dele e que o mataria se o pegasse. Precisava fugir, pegar um ônibus pra tentar achar uma irmã mais velha sei-lá-eu-onde. Dei as moedas e me desculpei por não ter mais nada. Preocupada, perguntei se ele sabia o que estava fazendo, se voltaria, atordoada pelo sumiço do filho, assim, de soco. Ele perguntou: posso te dar um abraço? E eu dei. Lógico. Ao pé do ouvido ele disse ainda: tia, eu nunca vou te esquecer. E correu. Subi pra casa uma subida da vida ao inferno que nem deve ser tão longe. Chorei todas. Pedi a Deus que desse direção, caminho, abrisse portas e o levasse ao lugar que a ele talvez pertencesse. Mas nisso, de súbito, perguntei-me quem sou eu pra tanto? Eu que também não tenho nada, paradeiro, sindicado, turma, família, não sou de lugar algum, e respeitadas as proporções não tenho ainda meu lugar ao sol, to querendo o que? Eu que não sei até hoje ao que vim? Refleti muito e acabei por querer saber o meu lugar também, onde fica. Meu filho e eu, dois impertencentes. Era uma noite daquelas em Porto para além do teto da Tok Stok. Negra. Sem estrelas. Peguei o violão e fiquei ali, tocando coisa alguma, olhando o céu. Veio a viagem do céu sem estrelas. E tentei imaginar o contrário: uma estrela sem céu para pousar. A impertencência. Parecia que quem tem alguma coisa, achou seu cantinho de céu para ficar. E quem não tem, é estrela sem céu. Eu, ele. Acabei compondo a música TODO que batiza o disco novo. E, enquanto compunha, enquanto perguntava, respondia. Responder era o pedaço de céu ao qual pertenço, talvez. Traduzir aquela coisa toda de filho adotivo, tentar falar sobre essa busca, colocar em canção o que havia sido pura devastação, talvez fosse, ao fim de tudo, o que vim fazer - a parte que me cabe deste latifúndio.Muito antes de "adotar" o Jefferson, eu já tinha outros 03 mendigos de estimação. Um deles é um catador de papel com o sorriso mais lindo do mundo. Baixotinho, feliz. Ele me adora. Abana, manda beijos de longe e sempre espera lá embaixo quando peço pra ele esperar. Outro é o gritão: um cara que anda anda anda por essas ruas e pára. Senta no chão e grita, grita muito. Desesperador. Ele é um cara bonito também. Dia desses atravessei o medo e fui a ele. Oferecei 1 real e ele disse: moeda moeda moeda!! Perdi o medo e ele ficou com o real embora fosse papel. Esse anda sumido. O terceiro é um bebum amado que um dia estava aqui na parada da frente. Fui pegar o ônibus e ele estava ali deitadão na rua. Levei 1 pila pra ele e ele ficou gritando: valeu mamãe! Deus te ajude, mamãe. Apelidei ele de Meu Filho. Sigo dando pilas pra ele vez em quando. Ele costuma ficar na Poty, na volta do lotação, antes da Quintino. Sorri lindo também. E tem o Jair, tinha esquecido desse, que ficava na frente da Caixa da Quintino com a 24. Esse acompanhei a decadência e a levantada. Querido. Quando melhorou de vida, me chamou pra mostrar o carrinho de catar papel e disse todo contente: agora tenho trabalho. Entendo o Coimbra e a indignação dele. Sinto o mesmo. A diferença é que hoje penso que no fim das contas, está tudo certo. Até esses que citei, de cujas vidas faço parte e que são parte da minha (alguns são mais presentes que alguns amigos), têm suas funções onde estão. Não fosse o Jefferson eu jamais acharia resposta para uma pergunta tão ancestral quanto aquela. Não fosse o Jair, talvez eu já não acreditasse mais na carta A Roda da Fortuna do Tarô. E o que seria de mim nas vindas pra casa, sem o sorriso do Meu Filho na volta do Parcão? Tenho relações com eles, reais. Eu que sei o que é fome, sei quanto mais vale um pila pra uma bebedeira e o posterior alento do esquecimento, em vez do prato de comida que julgamos estar fazendo o melhor. Porque te afirmo: às vezes é melhor continuar não comendo, do que comer hoje e sentir a fome voltar com tudo amanhã. Às vezes é melhor simplesmente esquecer. Não julgo o que farão eles com o pila que dou, por isso. Não me pergunto mais o que fazem na rua porque não me compete. Convivo. Trocos sorrisos. Dou e recebo deles. Torço pelo bem que lhes cabe ter. Pelo meu. Somos todos a mesma coisa, muitas vezes, impertencentes, sem céu pra ficar. E tantas vezes sentimos isso vida afora...Talvez seja por isso, também que eu não queira sair daqui, deste apartamento. Fizemos história, temos laços, raízes - o bairro e eu. Ainda assim, te agradeço pela indicação: ter lido, me fez lembrar mais isso que vivi, revisitar essa parte inteira da qual não lembro sempre. Assim, encontro sem querer o motivo oculto que move e justifica todas as coisas. Obrigada, Cíntia Amada. Beijos nessa cara que eu adoro ver de novo e que também faz parte da minha história por essas bandas.Necka.A propósito: no ano seguinte, no dia do meu aniversário, o Jefferson bateu aqui e disse: tava com saudades. Agora ele vai e vem. Tal qual um filho.
neckaayala@uol.com.br


Sábado, Setembro 09, 2006

 

Selo & envelope. Onde foram parar?

O Miguel Conde, do caderno Prosa & Verso do jornal O Globo, teve uma idéia fantástica: saber o que, dentro deste nada que é o mundo virtual, ficou guardado, de forma impressa ou salvo em algum arquivo. O resultado é capa do PV de hoje, que traz emails trocados entre escritores como Marcelino Freire, João Gilberto Noll, Cecilia Gianetti, Adriana Lisboa, Filipa Melo, Chico Mattoso, Santiago Nazarian. Eu estou lá na edição, trocando emails com Luis Antonio de Assis Brasil. A maioria dos autores comenta livros, experiências literárias, deprês e alegrias diversas. Um exercício de voyeurismo muito bacana (claro, publicou-se o que se podia publicar. Às vezes, existem coisas muuuuuuuuuuito íntimas e pessoais.)
Quem estiver a fim de dar uma olhada na matéria, dê um clique aqui .
Insisto: vale muuuuuuuuuuuuito a pena.
(Ah, e melhor, não tem nada viajandão. Só as inquietações de quem produz. E faz questão de produzir e compartilhar com seus pares. É, repito, genial).


Quarta-feira, Setembro 06, 2006

 

Berlimvich & Alles mão

A criatividade não tem limites. Isso eu aprendi trabalhando na redação de Zero Hora. Sentada justamente atrás do Carlos André, do lado do Pêssego, de frente para a Bete, ladeada, também atrás, pela Patricia e pela Larissa, tendo o Renato na outra ponta, aprendi que título bom se achava em grupo. Grupo exausto, alguém precisando de um título "bom". Cada um berrava uma coisa. O melhor vencia. E o melhor era, justamente, o mais infame. Uma diversão.
Eles continuam se divertindo. A respeito da tradução para o alemão, da qual já falei aqui, e a respeito da minha participação na Copa da Cultura em Berlim, Roger Lerina, que assina a Contracapa, colocou uma nota muito simpática intitulada Berlimvich (trocadilho de Moscovich, que quer dizer filho de Moscou, com filho de Berlim. Tá, a gente não explica. Mas achei bem sofisticado...)
O Carlos André Moreira, por seu turno, colocou um post muito legal no blog de livros do site da Zero Hora. O título: Alles mão.
Mas é cada uma que me aparece...
Olhadinha nos dois textos? Clique aqui


 

Oficina da Ivana

Estão abertas as inscrições para a Oficina de Minicontos com a escritora Ivana Arruda Leite. Ivana, que fez a apresentação do livro Contos de bolsa, a ser lançado pela Casa Verde dia 03 de outubro, no Dado Bier, vem a Porto Alegre a convite da editora. Haverá duas turmas, com dois encontros no espaço STB Brasas (Rua Anita Garibaldi, 1515, Bela Vista, fone 3028 1616), nos dias 29 e 30 de setembro (sexta-feira e sábado). Atenção: as vagas são limitadas, e as inscrições ficam abertas somente até 22 de setembro, a R$ 70,00.
QUANDO: 29 E 30 DE SETEMBRO DE 2006
TURMA A: dias 29/09 (sexta-feira) e 30/09 (sábado), das 14h30min às 17h30min.
TURMA B: dia 30/09 (sábado), das 9h30min às 12h30min e das 14h30min às 17h30min.
Observação: no segundo dia de aula, sábado à tarde, as duas turmas estarão reunidas.
ONDE: ESPAÇO STB BRASAS (RUA ANITA GARIBALDI, 1515 – BELA VISTA - fone 3028 1616). INSCRIÇÕES ATÉ 22 DE SETEMBRO NO LOCAL.
QUANTO: R$ 70,00 (À VISTA).
www.casaverde.art.br

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No mesmo dia e hora do lançamento do Contos de bolsa, o escritor e jornalista Caco Belmonte autografa seu No Orkut dos outros é colírio. Diversão garantida.


Segunda-feira, Setembro 04, 2006

 

Só é possível em alemão

Novidades no pedaço.
Das Dach und der Geiger e Schön wie der Mond é como se chamam, em alemão, dois contos meus, do livro Arquitetura do arco-íris. Os contos, O telhado e o violinista e Bonita como a lua, que foram traduzidos por Enno Petermann, vão ser lidos no dia 9 de outubro, na Embaixada Brasileira em Berlim. Vou lá, participar da Copa da Cultura. Eba! Estou feliz da vida.
As passagens chegaram hoje. Comemoremos!
E vam que vam. Maravilha, como diria Marcelino Freire.
Beijocas e inté!!!!!!!!!!!
PS: Quem quiser dar uma olhada na tradução, é só me pedir por email, que eu mando. Topam?


Domingo, Setembro 03, 2006

 

Liberdade?

Com relação ao post aí abaixo, aquele que reproduz a crônica de David Coimbra protestando contra a existência dos meninos de rua, levantou-se uma polêmica. Um jornalista, um dos caras mais cultos e eruditos e informados e tudo-de-bom que eu conheço (o nome eu dou depois, sei lá se ele quer ver seu nome nessa arenga), escreveu para Luiz Paulo, meu marido, argumentando coisas potentes e polêmicas. Que a noção de liberdade que têm os meninos de rua e os moradores de rua em geral não é igual à nossa, de classe média, judaico-cristã, internet, tv a cabo, geladeira e comida na mesa. Ele lembra que quando passa a ronda da prefeitura, todos os moradores de rua se escondem. Querem a vida do jeito que escolheram, dentro daquilo que, para eles, é liberdade. A liberdade de não ir para um albergue pulguento, de não ser currado, roubado, lavado, limpado, alimentado. De não ser subjugado na única coisa em que eles podem mandar na vida deles.
A pergunta é: isso é liberdade? Escolha?
Sei lá. Tô pensando. Tive o impulso de ir contra a mensagem do jornalista. Mas me detive para pensar.
O que cês acham?


Faz frio em Porto Alegre. Nariz gelado.
E essas crianças, e essa gente, tá na rua. Amanhã, vai ter gente morta por hipotermia. Morador de rua que não güentou o tranco de uma noite que vai acabar em geada.


Sábado, Setembro 02, 2006

 

Belo exemplo. O melhor de todos

Já ouvi, li e aturei gente falando mal de jornalistas e dos veículos nos quais eles trabalham. Trabalhei num jornal odiado pela maioria do pessoal dito de esquerda, a Zero Hora, de Porto Alegre. Que a Zero Hora manipulava as pesquisas de ibope, que tendenciosamente atendia a interesses pra lá de escusos, que no imbróglio do Oriente Médio o jornal tendia para uns e para outros, que no caso da CPI ocultava informações, que isso e que aquilo. Já suportei petistas, lulistas e psolistas dizendo que não lêem Zero Hora. Não lêem, porque odeiam. E odeiam sem ler. Odeiam de ouvido, de ouvir dizer. Durante a cobertura de um Fórum Social Mundial, tive medo de mostrar meu crachá e o bloco de anotações, no qual o nome do meu jornal se estampava com tipologia do tamanho de manchete. Já tive de andar de carro discreto do jornal por medo de levar pedrada. Pedrada de petista irado.
Mas quando o jornal acerta, quando um jornalista lá de dentro faz o texto mais poderoso que já li nos últimos tempos, onde estão os detratores? Em época de campanha política, David Coimbra, que tem crônica na nobilíssima página 3 do jornal, encerra o assunto. Manda pastar as discussões sobre a importância na azeitona na empada de camarão. David Coimbra hoje, dia 1 de setembro, escreve o que deveria ser falado todos os dias e sempre. Meu marido me chamou a atenção, porque hoje, sexta-feira, fiz leitura na diagonal, tocada pela pressa. Voltei ao jornal, li a crônica e ofereço a vocês. Ele dá nome e sobrenome de todos os que passaram pelo poder, nada fizeram e que, pelo voto, querem voltar. Olhem só que beleza. O email do cronista está ao final do texto. Vale a pena cumprimentar. Grande David.

01/09/2006
Estou farto!

Como é que nós permitimos essas crianças na rua? Duas da manhã, meninos com os pés descalços correndo pelo cimento frio, esmolando nas sinaleiras, como é que não nos escandalizamos com isso? Se houvesse um casal fazendo sexo ali na esquina, em cima da laje da calçada, o que é que nós faríamos? Ligaríamos para a polícia, decerto. Mas os meninos estão nas sinaleiras, as meninas vendem rosas nos bares, há crianças debaixo das pontes do Arroio Dilúvio, vagabundeando pelo Centro, e nós não fazemos nada. Esse é o grande escândalo do Brasil! Estou me lixando para a corrupção ou para o equilíbrio da balança comercial. Pouco importam o Pacto pelo Rio Grande, o Bolsa-Família que está elegendo o Lula, o fracassado Fome Zero. Não vai fazer diferença encher o país de presídios, fincar um guarda em cada rua ou construir hospitais. Porque nada, NADA é mais escandaloso do que as crianças na rua. Esses candidatos todos que estão concorrendo ao governo do Estado, será que eles não sentem vergonha? O governador Rigotto está terminando seu mandato, e cada vez há mais crianças na rua. Collares e Olívio sentaram nas cadeiras de prefeito e governador, e havia crianças na rua. E agora eles todos estão aí de novo, pedindo voto. Por favor! Por que nenhum deles fala das crianças na rua??? Por que o prefeito Fogaça não tirou as crianças da rua??? Por que não tira HOJE??? Desculpem, autoridades, mas não há mais como contemporizar. É preciso OBRIGAR a criança a ficar reclusa em uma escola 10 horas por dia. Obrigar! Até o filho da madame. Até o filho do empresário. Estou farto de todas as outras discussões, de todas as outras idéias, de todas as outras propostas. Porque são inúteis. Nada vai adiantar, nada vai funcionar, nada terá importância, enquanto houver uma única criança na sinaleira. E falta de dinheiro não é desculpa para não resolver esse problema. No interior paupérrimo da Bolívia não há crianças esmolando de madrugada, nas vilas miseráveis do Paraguai não há crianças debaixo de semáforos, nos altos da Colômbia conflagrada as crianças não cheiram loló. Para resolver esse problema só há que ter vergonha na cara. O dinheiro que há para levar astronautas ao espaço, para construir prédios públicos com piso de mármore, para equipar hospitais, para dar de comer a quem tem fome, o dinheiro que há para o bem ou para o mal, o dinheiro bem empregado ou malbaratado, o dinheiro e o esforço e as atenções todas devem ir para a educação. Estou farto. Não aceitem mais as crianças na rua. Por favor. Chega. Chega.
david.coimbra@zerohora.com.br


Sexta-feira, Setembro 01, 2006

 

Manifesto


Segue aí embaixo correspondência enviada por Waldir da Silveira, presidente da Câmara Rio-Grandense do Livro. Trata-se de um manifesto que pede, preto no branco e sem vinculações partidárias, que o candidato eleito para a presidência se comprometa com a causa do livro e da leitura. E que não fique fazendo cara de paisagem. Leia até o fim. E assine o manifesto, enviando-o ao email indicado.

Povo do Livro:

Mais uma oportunidade nos é apresentada de escolher novos rumos para nosso Brasil.
É de vital importância que nossos candidatos nesta próxima eleição, e futuros mandatários, tenham consciência de que nós, o povo do livro, o povo que pretende viver um Brasil pleno, como cidadãos informados e capazes de opinar e escolher os caminhos a serem trilhados por nossa nação, estamos atentos e seremos intransigentes: precisamos levantar a bandeira da educação e da cultura à prioridade nacional.
Exigimos a oportunidade de acesso a uma formação democrática, com informação ampla através principalmente dos livros - colocados à disposição em bibliotecas, escolas, empresas -, dos jornais, das revistas, da internet, enfim, do pensamento retransmitido, discutido, absorvido e transformado em cada indivíduo.
Acreditando que esta seja a base para o futuro de nosso país, encaminhamos aos amigos do livro cópia do manifesto elaborado por entidades e personalidades do mundo do livro no Brasil e que será entregue, a partir da próxima semana, aos 4 principais candidatos a Presidente da República nas eleições de 2006.
É um esforço daqueles que militam na causa do livro e leitura para que este tema seja convertido em política de Estado, acima dos governos e das pessoas.
Além de sua assinatura, seu auxílio é muito importante para levar esta empreitada adiante retransmitindo o manifesto e tornando-o uma de nossas bandeiras para o futuro do país.
Nosso prazo é curto - até o próximo domingo, 3 de setembro - para fechar a lista de adesões.
Segue cópia do manifesto. Para enviar sua adesão, basta clicar no endereço manifesto@livroeleitura.org.br . Não esqueça de informar nome completo, profissão/função, cidade, estado e, se for o caso, instituição a que pertence.

Sorte para todos nós, brasileiros, e que o povo do livro ajude a alcançarmos um Brasil muito melhor.

Waldir da Silveira
Presidente da Câmara Rio-Grandense do Livro


MANIFESTO DO POVO DO LIVRO

O acesso ao livro e a outras formas de leitura – como jornais, revistas e Internet – deve ser assegurado a toda a nação brasileira. Independentemente de credo, raça, faixa etária, necessidade especial, escolaridade ou condição econômica, todo brasileiro, como ser humano que é, deve ter garantido seu direito inalienável à leitura como meio de transmissão do conhecimento, entretenimento, de desenvolvimento pessoal e profissional e, portanto, de cidadania.
Em um país como o Brasil – onde apenas um entre cada quatro habitantes está habilitado para a prática da leitura; onde nossas crianças ocupam os últimos lugares nos estudos internacionais sobre compreensão leitora; onde o índice nacional de leitura é de menos de 2 livros lidos por habitante/ano; e onde a maior parte dos milhões de alfabetizados nas últimas décadas tornou-se analfabeta funcional – a leitura precisa e deve ser tratada como uma prioridade nacional.
A Educação e a Cultura são áreas estratégicas dentro do projeto do desenvolvimento nacional e da cidadania. A escrita e a leitura constituem não só o mais forte amálgama entre elas como o caminho indispensável para a formação do cidadão crítico, emancipado, inserido em seu meio e capaz de modificá-lo. Embora não seja a via única de acesso ao conhecimento e à informação – o que compartilha com outras linguagens, como a visual e a eletrônica –, o livro continua a ser a maior invenção do último milênio e a ocupar um papel central na sociedade.
A leitura gera condições para decodificar, interpretar, compreender e se fazer entendido, criando, assim, as condições necessárias para o ser humano se comunicar com os seus iguais. De tal forma que, ao promover o seu desenvolvimento em todos os aspectos, o ato de ler o credencia a buscar maior participação social e política e a exercer sua cidadania em plenitude.
As conquistas e os avanços obtidos nos últimos anos nas esferas federal, estadual e municipal necessitam ser preservados, mas não só. Precisam ser ampliadas e ganhar a dimensão que o tema merece. Programas e projetos de acesso ao livro e às outras formas de leitura, de formação de agentes multiplicadores (como os educadores, os bibliotecários e os voluntários), de valorização do ato de ler no imaginário coletivo, e, ainda, de fortalecimento da economia do livro devem ser convertidos em política de estado – acima dos governos e das pessoas.
Tornar a questão do livro e da leitura uma política pública significa aprofundar o vínculo das ações de Educação e Cultura e, sobretudo, dotar a área de uma estrutura administrativa e orçamentos capazes de atender às grandes demandas existentes. Os esforços feitos até agora pelos diferentes governos merecem o devido respeito, porém ainda são insuficientes para o Brasil começar a saldar essa dívida social com o cidadão e a cidadania, com o livro e a leitura.
O Estado deve garantir as condições necessárias de acesso ao livro gratuito aos seus cidadãos. A biblioteca é um serviço público e dever do Estado, tal como a saúde e a educação. Para tanto, o Estado deve cumprir, de forma cabal, a Política Nacional do Livro e dar, a partir de 2007, prioridade total à revitalização da biblioteca pública. É ela o meio mais eficiente de proporcionar educação continuada à população e, dessa forma, ser instrumento de democracia e de política social.
É, pois, fundamental e urgente que todos os municípios brasileiros tenham pelo menos uma biblioteca e que a rede existente – municipal, estadual, federal, escolar, universitária e comunitária – seja fortalecidas e reequipada para atender ao cidadão brasileiro dentro dos padrões mínimos internacionais: com bons e diversificados acervos de livros e outros materiais; pessoal qualificado e estimulado; e recursos permanentes para manutenção, atualização, formação e fomento. A Lei do Livro, a Câmara Setorial e o Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL) devem ser aprofundados e ganhar maior efetividade, materializados em projetos, programas e investimentos, em todos os rincões do país, sobretudo nas áreas menos favorecidas.
Às vésperas de se comemorar os 200 anos da impressão do primeiro livro no país – que ocorreu em 1.807, após a chegada da família real portuguesa – faz-se urgente e indispensável tornar o Brasil uma nação verdadeiramente de cidadãos leitores. A prática social da leitura é, afinal, o caminho para onde apontava a legião de brasileiros notáveis – integrada por escritores como Monteiro Lobato e tantos outros – como a estratégia de enfrentamento do drama da fome, da pobreza, da ignorância e da violência urbana para colocar o Brasil , aí sim, no rumo do desenvolvimento, da justiça social e da solidariedade.

Brasil, setembro de 2006.
manifesto@livroeleitura.org.br


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