 |
Segunda-feira, Janeiro 22, 2007
Viver engorda
No penúltimo dia do ano passado, levei um baita susto do bem. Manuel da Costa Pinto, um dos jornalistas mais competentes, independentes, inteligentes e, permitam-me, mais elegantes e bonitos que as redações de qualquer quadrante já viram, escreveu o que se seguem na coluna dele na Folha de S. Paulo. Olhem só se um autor não tem que ficar rindo sozinho. "VIVER ENGORDA MANUEL DA COSTA PINTO Cíntia Moscovich usa neurose da obesidade como mote para romance que mistura memória e invenção TUDO CONSPIRA contra o novo livro da gaúcha Cíntia Moscovich. O título sugere um manual de auto-ajuda contra os excessos de fim de ano. O tom confessional lembra um diário de adolescente. A verdadeira literatura, porém, resiste a tudo, até mesmo aos impulsos suicidas de uma escritora que finge se desviar de sua implacável vocação ficcional.Estrutura e conteúdo podem lembrar a "Carta ao Pai", de Kafka. A exemplo do autor judeu-tcheco, que se dirige ao "pater familias" para expor a chaga que o condena à errância literária, Moscovich elege a mãe como leitora ideal de seu relato. O tom de "Por que Sou Gorda, Mamãe?", contudo, está mais para Woody Allen -a começar pela figura melodramática da matriarca e pela hipocondria ("esse pânico ritual muito próprio dos judeus").O elemento deflagrador é apresentado no prólogo, que firma com os leitores um pacto ficcional: tudo o que virá a seguir é matéria autobiográfica costurada de modo a explicar como a autora se deixou dominar por um velho fantasma -a obesidade-, engordando 22 quilos em quatro anos.Entre visitas ao endocrinologista e academias de ginástica ("confrarias da adiposidade" que aguçam o sentimento de exclusão), Moscovich vaza os acontecimentos desse "romance familiar dos neuróticos" (para citar outro judeu que dissecou a dinâmica afetiva do recalque e do ressentimento).A história da Vovó Magra (que carrega as marcas da diáspora e de uma paixão irrealizada), a morte prematura do pai (fazendo com que a adolescência da protagonista fosse seqüestrada pelo "terror amoroso" da mãe) e o microcosmo da comunidade asquenazita de Porto Alegre compõem um cenário imantado pela língua ídiche, pelas tradições religiosas e culinárias (um cardápio de varenikes, guefiltefish, borscht e outras iguarias do Leste Europeu).Aquilo que se transmite de geração em geração, porém, é menos palpável. "Eu queria tocar de uma vez no miolo duro da vida", diz em certo momento essa escritora que, na esteira de Clarice Lispector, destrincha cada movimento da consciência para estar perto do coração selvagem das coisas. Nessas lembranças familiares, importa sobretudo o modo como os papéis vão se espelhando e as palavras deslizam numa correia de transmissão simbólica, que é também uma espécie de grilhão."Continuar vivendo é algo que pode tornar uma pessoa alheia de si mesmo. Viver engorda." A obesidade é o "correlato objetivo", a metáfora viva dessa existência cuja mecânica consiste em se desfigurar para tapar seus buracos.Ocorre que isso também define uma poética que deverá perpetuamente "purificar a memória em invenção", suturando as fissuras do ser com uma "cerzidura que, embora invente nos pontos muito miúdos e caprichosos da memória, me dá a sensação de um arranjo ordinário e discrepante, eterna precariedade, eterno improviso".
Tá bem, tá bem
Foi tanta queixa, tanto xingamento, tanta azucrinação, que eu resolvi voltar e postar. Começarei pelo fim dos assuntos. Exatamente pelo dia de hoje. Depois de uma resenha MARAVILHOSA que o Manuel da Costa Pinto fez de meu Por que sou gorda, mamãe (depois posto ela aqui, prometo), na Folha de S. Paulo, hoje saiu uma resenha também maravilhosa assinada pelo Moacir Amâncio, no Estadão. A leitura dele foi super original. Confiram: "Está tudo em ordem. Só dói mesmo quando a gente ri Está tudo em ordem. Só dói mesmo quando a gente ri Em Por Que Sou Gorda, Mamãe?, a metáfora da obesidade dá humor ao drama de judeus em busca de um lugar para morar Moacir Amâncio Em Por Que Sou Gorda, Mamãe?, da escritora gaúcha Cíntia Moscovich, a história gira em torno do mais impossível dos amores: o amor entre mãe e filha. Ele existe, está presente de modo avassalador, mas só se dá no conflito surdo ou manifesto. Não se trata apenas de uma história ora divertida ora reflexiva sobre um dos assuntos prediletos de todas as mídias, é também um romance alegórico sobre a existência contemporânea e provavelmente o mais brilhante exercício de humor judaico da literatura brasileira.Moscovich narra o caso de uma garota gaúcha descendente de imigrantes e que recebe toda a carga do que representa a vida de judeus originários da Europa Oriental em busca de um lugar onde a vida fosse possível. Tudo ainda está muito próximo: os pogroms, as fugas, o fim de uma época que terá seu selo máximo na Shoá, o Holocausto e o recomeço em pontos diversos do globo, incluindo o Estado de Israel. Mas a história se passa no sul, onde instituições judaicas humanitárias criaram colônias agrícolas para os que se dirigiam ao Brasil.É um começo de aculturação confusa e, claro, cômica, pelas trapalhadas e também pela entrada do folclore local na imaginação daquelas pessoas e descendentes, que só podem ser entendidos em sua integridade quando vistos dentro do novo cenário. A carga dos traumas encontra seus herdeiros e neles se instala: a expressão se configura na superalimentação. É simples, se eu e meus pais não tinham direito o que comer, nada faltará aos meus filhos. No entanto, a autora sabe como fazer disso uma metáfora de alcance amplo.Entre outras coisas, Moscovich demonstra, com a leveza da mão de mestre, como o anti-semitismo não fica no tempo e no espaço, mas se transforma e continua a atormentar suas vítimas de modo sutil e permanente. Um ponto inicial pode ser este: se eu e meus antepassados passamos fome, meus filhos não passarão. E tome comida. Parece banal, apenas parece. Com isso desencadeia-se o processo e toda a memória do horror vem à tona no próprio corpo das personagens.O processo se dá de modo irreversível: as pessoas começam a engordar. Elas, assim, se revelam objetos manipulados incessantemente, presas de uma cadeia nos dois sentidos. E sem saída. Há paliativos, os regimes, que na verdade não passam de outra ala do mesmo inferno. Vejamos: se não são discriminadas por serem judias, são discriminadas por serem obesas. Nisso, Moscovich vai além da narrativa de tom étnico para atingir a dinâmica do universal. Sempre haverá o excêntrico para que a idéia do centro se autojustifique. O drama corre, como disse, entre dois pólos, mãe e filha. Esta vê naquela a agente encarregada de atormentá-la a partir da elegância insuportável e inatingível - isso impede que a filha de início perceba a vítima sob disfarce. Tudo conspira, a comida é a obsessão mais freqüente. A cena em que uma tia de São Paulo aparece em Porto Alegre com um pacote de arenques comprados em liquidação e... podres, é hilariante e, claro, pungente, no melhor estilo. Há aí uma sugestão estimulante: toda a família dentro do Ford todo-poderoso do pai faz com que o carro se desmonte. O carro, orgulho do produtor simpatizante de Hitler, não resiste ao peso da massa de vítimas. Está tudo bem, só dói quando rimos. O que está por trás de tudo isso vem revelado num dos capítulos finais, a respeito de uma família vizinha que levou o efeito do campo para dentro da casa com janelas vedadas, onde continuam ocultando sua agonia, pois nada daquilo acabou. Enquanto os moradores da frente simplesmente estufam. Está tudo bem, só dói quando a gente ri. Moacir Amâncio é autor de Contar a Romã e Óbvio"
|
|
|
 |