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Segunda-feira, Março 26, 2007
Bonde da alegria
Olá, povos. Por absoluta falta de tempo, não postei. Agora, o assunto que me move é o Amores Expressos, aquela coisa que, com a Lei Rouanet, 16 autores vão passar um mês numa capital do mundo (de Tóquio a Buenos Aires), com tudo pago e com a obrigação de escreverem um livro. De preferência, uma história de amor. A Companhia das Letras, do Luis Schwarcz, já disse que publica os livros que julgar interessantes. E por que não? Dois autores convidados são inéditos em livro. A iniciativa é do Cuenca e do Teixeira. É, sim, um lance de oportunismo. Mas demonstra que só acontece se a gente faz. De resto, fica todo mundo falando que tá errado. E ninguém faz nada. Ao menos, os dois idealizadores foram lá e fizeram. O Marcelo Mirisola espumou de raiva. Saiu matéria no FSP e no Globo. Ontem, li matéria do Jerônimo Teixeira em Veja. A Márcia Denser jogou mais eca no ventilador. E enviei a seguinte resposta. Aí abaixo. Com relação à polêmica sobre o trem da alegria literário, pergunto qual é o grande drama. Todo mundo sabe que a grana é de quem chegou antes. Como em todos os lugares da república. Nada errado em propiciar estadias de um mês em capitais do mundo a escritores. Viagens são oportunidades de enriquecimento e, se o patrimônio acumulado pelos 16 autores volta para o país, nada a reclamar. Haverá, claro, uma evasãozinha de divisas, que os autores deixarão nas cidades de destino. Mas é coisa pouca: tomemos como investimento da nação. E estou falando muito sério. Há dois autores virgens de livros, caso da Ciça Gianetti e de um outro autor de quem nunca ouvi falar — que deve ser falha minha, não do novel. A Ciça, essa eu conheço e há anos espero um livro de sua lavra. Não sei como ela vai se sair, mas espero que saia bem. É minha amiga e espero muito dela — que trabalha como editora no Portal Literal, que também ostenta a bandeirinha do Brasil, indicativo de patrocínio do Estado. Pensando bem, talvez o Cuenca e o Teixeira tenham baixado a guarda e tenham escolhido autores, digamos, “perigosos” para mandar passear no exterior. Não sei, porque, até onde me lembre, nenhum dos dois se manifestou a respeito. Mas eles devem ter uma resposta satisfatória. Pra tudo no mundo tem explicação. Gosto, no entanto, da idéia de “apostar nos novos”. Alguma coisa pode sair daí. (Em tempo: numa discussão, o Cuenca disse que não tem o tal “leitor ideal”, que não escreve pensando em ninguém. Ficou brabo, bateu pé, espumou. Agora se vê que o Cuenca tem é autores ideais. Por que não falou logo?) Quanto à Companhia das Letras estar se beneficiando do enrosco, não posso dizer nada. Claro que o Luiz Schwarcz não ia pregar prego sem estopa, que ele não é burro nem nada. Mas também sei que não é um cara desonesto ou imoral, o mesmo se dizendo da equipe que trabalha com ele. Ele vai aproveitar para engordar o catálogo. Isso é imoral? E aquelas compras de livros, que garantem sobrevida a editoras, e cujo destino sabe-se lá qual é? O problema não é a grana, é a falta de alguém que faça e que se organize para fazer. Dinheiro para formação de leitores? Grana para bibliotecas públicas? Quem é que faz? Há quem se mobilize e ofereça as mãos para concretizar a demanda? Dinheiro, vê-se, até tem. Não tem quem faça de modo eficaz. Todo mundo fala, fala, reclama, reclama. Cadê a ação? O caso problemático é mesmo aquele levantado pelo Mirisola, que talvez tenha pegado pesado demais, e pela Márcia, que sempre pega pesado, mas que volta e meia tem razão. Como a Lei Rouanet é administrada, quais os parâmetros para autorizar a renúncia fiscal de empresas que assim desejam se beneficiar? De cabeça, e na corrida, relembro de dois bancos que optaram pela Lei Rouanet para fortalecimento da imagem institucional e, de quebra, realizam atividades de apoio à cultura em sentido amplo: o Itaú Cultural, que tem até sede na avenida Paulista, e que mexe, de fato, na vida literária nacional, que é de vocação mais paradinha. Graças ao Itaú, a gente tem bons eventos literários não só em São Paulo, mas em várias capitais. Dá até pra dizer que há uma descentralização de atividades, que se fixam no chamado eixo. Por outro lado, o Instituto Moreira Salles, o IMS, também promove excelentes atividades. Desconfio que usando a Lei Rouanet, já que, nos Cadernos de Literatura (aquelas publicações que todo mundo conhece e que são tudo de bom, exceto pelo preço final dos exemplares, que é meio salgado) consta o logo do Ministério da Cultura. Não sei se o Itaú ou o Unibanco de fato precisariam do dinheiro público para fazer o que fazem. Mas optaram por apostar em atividades artísticas e culturais, que está de bom tamanho. O que a gente deve pensar mesmo é isso: quanto do dinheiro público deve ser aplicado em literatura. E vamos acabar com isso que literatura é a mais barata das formas de expressão, que caneta e papel é tudo o que basta, como diria o Jerônimo Teixeira na matéria da Veja que acaba de chegar. O sujeito que escreve demora um tempão escrevendo com caneta e papel. E tempo é dinheiro. Literatura não é baratinho, não senhor. Dá úlcera e depressão (custa remédios). E custa um tempo enorme de reflexão e de refazer tudo de novo. Mesmo que alguns jornalistas digam que é balela e que escrevam no rabo das horas sobradas da redação, a realidade não é bem assim. Literatura se faz queimando pestana em cima do texto. Não é com qualquer cartão de crédito que se compra dedicação deste tamanho. Na próxima, me convidem. Não esqueçam.
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