O telhado e o violinista
Não há escolha:
estamos presos ao livre-arbítrio
I. B. Singer
- Judia suja.
Eu, que nunca havia experimentado a sério ser quem
era - porque uma menina de nove anos apenas tem nove anos
-, passei, de uma hora a outra, a ser judia e a ser também
suja - o ódio na boca de Paula fazia com que as duas
palavras se equivalessem. Fiquei ali, parada, paradinha,
olhando para a menina, que, subitamente, se tornara dona
de uma voz tão impositiva que se assemelhava à
verdade. Sem sabermos, ela ou eu, obedeciam-se a velhas
tradições - era um conhecimento com que os
ruins já nascem. O ódio cintilando a ponto
de zunir no miolo dos olhos negros, Paula repetiu a ofensa,
arrastando-a escandida:
ju-di-a-su-ja.
Então em mim, pela primeira vez, se abriu uma violenta
ferida de sangue, uma hemorragia de raiva e dor grande demais
para o espírito de uma menina. E a criança
que eu era arranjou ainda ânimo de fazer a pose da
insolência, as duas mãos na cintura, e arranjou
ainda instinto para retrucar:
- E você é uma bocó. E uma burra.
Pronto, eu, como ela, também obedecia a antigas tradições
- pela minha lei de talião, ser bocó e ainda
por cima ser burra era pior do que ser suja. E a fúria
com que a insultei inaugurava em mim um novo sentido para
a verdade, aquela da qual, enfim, eu também podia
ser autora. Recolhi a boneca do chão, penteei com
a ponta dos dedos a franja muito loura, muito simétrica,
e agora desfeita: magoava-me que minha Suzi fosse o inocente
motivo de desavença. Dei as costas para Paula e para
sua porqueira de casinha em madeira pintada de azul e subi
de dois em dois os degraus do prédio. Empurrei com
raiva a porta da área de serviço de nosso
apartamento, que estava sempre aberta.
Suja era ela. E toda a família dela. E os filhos,
netos e bisnetos que ela ia ter.
Desde a morte de meu avô e desde que
viera morar conosco, virava e mexia, a pose era a mesma:
sentada na beira do sofá, pés paralelos, cotovelo
apoiado no joelho, queixo descansando na palma da mão.
Nessas horas, o olhar de minha vó se perdia num alheamento
de fulgurações azuis, fixo na imprecisão
de quem recolhe lembranças encravadas numa rebarba
de tempo. A imobilidade daqueles instantes era sempre cortada
por um longo - tão longo - suspiro, arrematado por
um oi, veis is mir, a lamentação dos judeus
em todo o universo. "Pobre de mim", comiserava-se
ela. Que triste era aquilo.
Na sala, encontrei-a na mesma posição, interrompendo-se
num lamento que remontava a eras lá bem remotas.
Sentei a seu lado no sofá. Fiz beiço para
contar:
- Vó, me chamaram de judia suja.
Ela, a quem nunca fez falta o delicado essencial, me olhou
espantada.
- Quem?
"Quem?" era pergunta de espectro amplo. Podia
também significar, "por quê?". Respondi,
ainda dolorida, que Paula, a menina que morava no trezentos
e quatro, queria que minha Suzi fosse a empregada no brinquedo
de casinha. A vó, que farejava de longe as disposições
hierárquicas mal-intencionadas, teceu um impropério
em iídiche. Depois falou devagar, para que eu compreendesse:
- Você é a menina mais limpa do planeta. Ela
que é uma mischigne. Entendeu?
Paula era, na voz da vó, uma louca - dito no antigo
dialeto, o insulto era muito maior. O mundo voltara a se
organizar, as terríveis histórias que sempre
escutei passaram a fazer todo o sentido. Abraçada
à minha Suzi, descansei a cabeça sobre as
pernas da vó, aspirando o perfume da florzinha de
jasmim - mimo que a dona da casa ao lado lhe alcançava
todas as manhãs e que ela, faceira, sempre trazia
dentro do sutiã.
Entremeava os dedos de juntas nodosas em meu cabelo, crespo
como o seu: fazia e desfazia a mesma trança numa
mecha cuidadosamente repartida. Pelos repetidos suspiros,
soube que estava angustiada - tanto que começou a
reprisar aquela história de cossacos com sabres em
seus cavalos. Melhor não ter contado a ela sobre
a briga: reavivava na coitada uma dor grande. Não
queria que ela sofresse.
E eu também fazia e desfazia uma trança no
cabelo da Suzi. Num suspiro que interrompeu minhas ternuras,
fui gêmea de minha vó: odiava tanto Paula quanto
ela odiava os cossacos.
No final daquela tarde, quando o pai e a mãe chegaram,
reuniram-se os adultos em nervoso comitê na sala de
jantar: a vó contava do meu primeiro enfrentamento,
enquanto eu, na cadeira ao lado do pai, protegia bem forte
a Suzi contra o peito. Meus dois irmãos, que vinham
do futebol, entrando em algazarra pela porta da área
de serviço, foram chamados à sessão
- e que parassem com aquela bagunça, tratava-se de
assunto sério. Sentaram-se, os rostos no vermelhidão
do suador: eram a alegria interrompida.
O pai espalmou as duas mãos sobre a madeira da mesa,
os olhos ferviam de ultraje. Voltou a lembrar daquela história
que era nosso horror ancestral: o ódio, as perseguições,
os mortos a troco de nada e - horror entre os horrores -
a casa e a família da vó arrasadas num pogrom,
daqueles com cossacos em seus cavalos. Nossa velhinha emitiu
mais um suspiro, os olhos se perderam em novas cintilações
azuis. O pai deu um jeito solene à voz:
- Daqui por diante, que nenhum de nós volte a falar
com aquela mocinha anti-semita - e punha-se bem em seu papel
de patriarca. Olhando para mim, agora com ternura de aprovação,
ele acariciou a minha franja e a da minha boneca: - Você
fez bem em chamar aquela burra de burra. Nada de humilhações
e de vergonha.
A mãe emendou:
- Se você se abaixa demais, aparece a calcinha.
A vó fez pu-pu-pu, a simulação das
três cusparadas, espantando a presença do diabo.
A partir daquele momento, nós, os filhos, fomos invadidos
pela consciência da vergonha que havia em ser humilhado.
Era tão indigno quanto mostrar a bunda.
O pai, ao nos preparar para dormir, sempre dizia que a vida
começava no dia seguinte. A frase era declinada em
italiano, fato que, partindo de um filho de imigrantes judeus
russos, tinha lá sua parte no insólito - sem
nunca deixar de ser verdadeira. Assim, dias melhores vieram.
Tanto que já era época do Yom Kipur. Como
sempre acontecia nos arredores do Dia do Perdão,
uma bela tarde minha vó trouxe da rua uma galinha.
Viva.
Conhecia de cor o roteiro a ser cumprido dali por diante,
motivo pelo qual sempre me neguei a comer carne de qualquer
ave. A abominação: o bichinho teria uma das
patas amarrada ao tanque de lavar roupas e ficaria preso
por uns três dias na área de serviço,
o piso coberto por jornal para proteger dos cocôs,
ciscando numa gamela de madeira grãos de grosso e
amarelo milho. Para mim, o espetáculo era mais do
que terrível: escavada num tosco pedaço de
pau, a última refeição da condenada.
Eu, que costumava entrar no apartamento justamente pela
porta de serviço, passaria por ela várias
vezes, desviando o olhar, com culpa impotente de deixá-la
em seu pavor de prisioneira da sua própria natureza
e de seu destino de galinha - o féretro seria uma
assadeira, o corpinho de asas curtas e pernas abertas rodeado
por cebolas e por batatas luzindo na gordura dourada. Na
véspera do jantar que romperia o jejum, haveria um
gritedo na cozinha: a vó em ói-ói-ói,
e a galinha em desespero de cacarejo, as duas se altercando
numa batalha desigual. Eu fugiria da contenda, os ouvidos
tapados com as palmas das mãos, rezando para que
aquilo tudo passasse logo, passasse logo, passasse logo.
Da luta, à qual se somaria um asqueroso cheiro de
queimado, haveria um só vencedor. Era, segundo meu
pai, a lei do mais forte: a história de David e do
gigante Golias às avessas.
Enfim seria silêncio fúnebre - dessa maneira
passei a ensaiar os primeiros lutos de minha vida. A vó
me chamaria por meu nome em iídiche, coisa muito
séria. Eu iria à cozinha, cheia de angústia
na antevisão da cena trágica, a galinha pendurada
pelas patas à torneira, o sangue escorrendo do talho
da degola sobre a louça branca da pia. Um golfo de
náusea, e eu ficaria ali, no meio do assoalho de
ladrilhos, dura de obediência, para que a vó
desse sete voltas com o bicho morto sobre a minha cabeça,
recitando alguma bênção esquisita. Pronto:
o sangue impuro da ave escoado pelo ralo, e eu teria feito
parte de mais um estranho ritual antepassado. A morte da
galinha, dizia a vó no seu torto sotaque, levara
todas as ruindades que me cercavam. Pobrezinho do bichinho.
Naquela tarde, no entanto, por aquele instinto ativo a que
estava me habituando, fui até a cozinha antes que
o momento tétrico chegasse. A galinha em cacarejo:
penas pardas arrepiadas, pata presa por um cordão
ao tanque, zonza de tanto ser bicho. Sem atinar o inescapável
da situação, tentava se desvencilhar do sacrifício.
A vó, cantarolando distraída, areava a panela
de arroz com uma barra de sapólio. Era uma desumanidade:
como ela, logo ela, podia ficar indiferente ao terror ali
do lado?
Foi aí que aconteceu: a galinha me olhou. Um olho
de esperança, como se eu tivesse algum poder messiânico.
E as pupilas pretas da galinha, com um espanto de cera preso
nas pálpebras amendoadas, pediam qualquer gesto redentor
da criança que eu era. Amor de salvação
era coisa de adultos. Mas houve um momento em que a bondade
me ultrapassou, porque um dia eu seria mãe, e porque
era filha e neta e irmã e sobrinha. Acocorada, repeti
os mimosinhos e afaguei a crista sangüínea e
tenra, a galinha deixando-se acariciar como se fosse um
gato ou um cachorro. Como se não fosse uma galinha.
Alguma coisa, em mim e nela, acontecia, algo que eu não
chegava a entender a olho nu. Sei hoje que a galinha foi
acometida de uma esperança difícil e torta,
mas ainda assim esperança.
Eu, dona de uma vida, autora de uma verdade, disse impositiva
de redenção:
- Essa galinha não vai morrer - e, para garantir
minha ordem, igualei bicho a gente: - O nome dela vai ser
Hortênsia.
No jantar de Yom Kipur, a mesa era mais do que matar a fome:
tivemos beigales de batatas que estouravam em crostas tostadas,
knishes de ricota fofos na textura de gordura e farinha,
saladas de mangas e melões nadando em espesso creme
agridoce, torta de berinjelas e cebolas que cintilavam à
luz do castiçal de prata. O chrein, na energia colorida
das beterrabas, acompanhava os bolinhos de peixe: comemos
guefiltefish ensopado com tiras de cenouras, pimentões
e tomates. Estávamos pacificados pela fartura, esperançosos
pelo ano que se iniciava, mas mesmo assim meus irmãos
reclamaram. Foi o primeiro Yom Kipur em que não houve
disputa pelas coxas de galinha. Uma vez que galinha não
havia.
O bem tinha vencido.
Eu nem acabei de comer direito, pedi licença para
ir ver Hortênsia, que descansava na área de
serviço, acomodada no cestinho de palha montado dias
antes. Porque era feriado santo, o comentário de
meu pai, à cabeceira da mesa, foi comedido:
- E essa agora.
Naquela madrugada, a casa foi sacudida por uma gritadeira
de mundo que está acabando: Hortênsia finava-se
em cocoricação e bater de asas. Pulei da cama.
A mãe saía do quarto abotoando-se no chambre,
o pai vinha atrás de peito nu. A luz da área
de serviço estava acesa. Reconheci o vulto da vó,
de pé frente a Hortênsia, que, por seu turno,
colocara-se de pé sobre o ninho. Os braços
da minha velhinha estavam caídos ao lado do corpo;
Hortênsia não parava de bater as asas. O pai
espetou no ar o indicador, o dedo apontando a surpresa.
- Um ovo - ele disse, agudo de espanto - a galinha botou
um ovo.
O rosto da vó se iluminou. Disse o que se costuma
dizer nessas horas, em iídiche, claro, e em português:
- Mazel tov - eram os augúrios de felicidade futura.
- Que venha em boa hora.
A mãe, que sempre adorou bebês, enterneceu-se:
- Que amor!
Eu, sonolenta, custei um pouco a entender. Logo a mãe
mandou acordar os meninos, viessem todos, que a galinha
agora também era mãe. Foi meu irmão
o primeiro a se dar conta:
- O ovo tem pinto dentro?
O pai olhou-nos a todos. Tinha uma expressão desolada:
- Mas é cada uma que me acontece.
Hortênsia passava a maior parte do tempo no ninho.
Entronizada, o peito estufado, permanecia altiva em sua
condição galinácea, feliz de estar
chocando. De vez em quando, piscava os olhos lentamente:
podia jurar que ela pensava.
- Uma gravidez, ainda que do lado de fora, não deixa
de ser gravidez - a mãe ponderou quando eu quis pegar
o ovo para ver se tinha pinto dentro.
- Deixe a Hortênsia chocar em paz. E troque os jornais
da área de serviço, ninguém quer ser
mãe meio no meio da cocozada.
Assim, ao lado da grávida, eu me sentava na cadeirinha
de vime que o pai tinha me dado. Minha vó passava
as tardes na área de serviço, contando histórias
no conforto da cadeira preguiçosa, que, agora, migrara
para o berçário da casa. Ela me ajudava a
fazer tranças em minha Suzi, costurava roupinhas
novas, fazia de conta que a gente, as três, passeávamos.
Hortênsia e eu aprendíamos as delicadezas da
maternidade.
Lá uma bela manhã, todos se preparavam para
ir à escola, quando novo alarido na área de
serviço invadiu a casa. A vó se exclamava
toda, dava gritinhos em ui-ui-uis de alegria, viéssemos
todos ver.
Eu e a mãe fomos correndo. O pai, ainda ajeitando
a gravata, nos seguiu porta afora. Daí que eu vi:
a casca do ovo quebrada.
Um pintinho.
E ele piou.
Foi um pio sofrido e choroso, pio fino que estremece quem
ouve. Àquela altura, lambuzado das secreções
natais, o pinto resplandecia de amarelo, acontecimento de
penugem perfeita - uma graça. Dei um passo à
frente e estendi a mão. Hortênsia, com uma
rapidez de raio, bicou meu dedo. A vó contemporizou:
- Bicho é igual a gente. A mãe não
deixa ninguém mexer no bebê.
Entendi. Os irmãos vieram correndo. Estacaram:
- Mas é um pinto - disse o mais novo.
- Um pinto - repisou o mais velho.
- Pois é, um pinto - trepliquei.
Enquanto ficávamos nessa de descobrir que o quadrado
não é redondo, o pinto inaugurava a plena
forma de seus pulmões: uma piaçada constante.
A vó, nervosíssima, repetia mazel tov, mazel
tov, mazel tov, a mãe não parava de exclamar
que o recém-nascido era um amor - e o pinto era um
ser em desespero com nossa alegria. O pai, meio abobado,
pronunciou a pergunta do ano:
- O que a gente faz agora?
Nos entreolhamos: teríamos de deixar que a natureza
fizesse seus milagres, o pinto viveria sob os cuidados de
Hortênsia, assim raciocinou a mãe. Me veio
a súbita idéia: e o nome do pinto? O pai ia
iniciar uma frase de protesto, mas se deteve, contrariado.
Eu declarei:
- Ele vai se chamar Fúlvio.
O pai me perguntou de onde eu tirava aqueles nomes, como
se bicho fosse gente. Respondi que não sabia. Então
ele fez uma consulta ao relógio e enxotou todo o
mundo, hora de colégio. Antes de sairmos, foi dar
uma olhada na área de serviço. Perguntei como
andavam as coisas.
- Mãe e filho passam bem - respondeu, dando de mão
na pasta de trabalho.
A fala era minha:
- E essa agora.
Ele fez que não escutou.
Naquele dia e na semana que se seguiu, a função
da casa era Fúlvio. Àquela altura, ele já
tinha mais corpo, as penas feito suspiros amarelos: passava
o dia ciscando farelinhos. Vez que outra, eu consegui mantê-lo
na palma das mãos, cuidando com a alma aquele ser
cujos ossos pareciam gravetos numa montagem periclitante.
Hortênsia mantinha-se alerta, mas não me bicava
mais. Tenho hoje certeza de ela se orgulhava em exibir seu
pimpolho penugento.
A notícia de que tínhamos uma galinha, que
a galinha tinha botado um ovo e que o ovo tinha virado um
pinto logo se espalhou pela vizinhança. Várias
vezes a campainha soava: Fúlvio era o destino de
visitas guiadas - todo mundo devidamente advertido de que
podia olhar com os olhos, jamais com as mãos.
Até que lá uma tarde de domingo, logo depois
que os meninos saíram para o futebol, a campainha
tocou. Como eu estava com a minha Suzi fazendo companhia
a Fúlvio e Hortênsia, corri a abrir a porta
da área de serviço.
Paula.
A anti-semita.
Mantive a porta entreaberta, protegi a entrada de casa com
meu próprio corpo. Perguntei ao inimigo o que desejava.
Queria ver o pinto.
Eu disse que estávamos proibidos de falar com ela.
Ainda assim, insistiu:
- Minhas sinceras desculpas por ter ofendido você.
Posso ver o pinto?
Havia ali uma variante que eu não dominava: o pedido
de desculpas. Disse peraí, encostei a porta, corri
para a sala, atravessando a cozinha. O pai lia o jornal.
Expus meu drama:
- A Paula está lá fora, pediu desculpas sinceras
e quer ver o Fúlvio.
- Anti-semitas só são sinceros no ódio.
Essa menina não entra em nossa casa, caso encerrado
- rosnou o pai.
- E o que eu digo?
- Diga que ela não é bem-vinda - ele se deteve
um instante para a mensagem de desaforo: - E diga também
que o pinto é judeu.
Foi aí que parei. Fiz as contas: só é
judeu o filho de mãe judia. Se o Fúlvio era
judeu, então faltava um pedaço da história.
A pergunta foi imediata:
- Pai, a Hortênsia é judia?
Ele descolou os olhos do jornal, não sem algo de
impaciência. Decidiu salomonicamente:
- Nós adotamos a galinha. Ela e o pinto estão
sob a responsabilidade de uma família judia.
Eu raciocinei em voz alta:
- Se nós adotamos Hortênsia, então ela
faz parte da família. Como somos judeus, ela também
é judia.
O pai desviou a atenção do jornal. Me escutava
visivelmente interessado, mesmo que o raciocínio
fosse meio caolho.
Concluí:
- Portanto, o filho dela também é judeu.
Ele arregalou os olhos. Deteve-se um instante, pensativo.
Pôs fim ao assunto:
- Pois então, foi o que eu disse. E essa menina não
põe os pés aqui. É uma chicse, uma
schleper e uma sonem.
No iídiche arrevesado de meu pai, as três expressões
eram o desprezo máximo: a menina era, pela ordem,
uma não-judia desprezível, uma vagabunda e
uma inimiga. O caso chegara a seu final. Ajeitei minhas
tranças e revisei mentalmente os fatos do diálogo.
Ia já já dizer para Paula que as desculpas
não seriam aceitas, que anti-semitas não eram
sinceros e que Fúlvio era judeu, bem assim, daquele
jeito. O pai nem baixou o jornal:
- É.
Foi então que ouvimos o estardalhaço cocoricante
de Hortênsia e o piar aflitíssimo de Fúlvio.
Tive uma agulhada de lucidez - pensei na minha Suzi -, e
custei a crer na intuição, erro que me fez
ficar imóvel no meio da sala. O pai se pôs
de pé num salto, a vó e a mãe saíram
de seus quartos correndo. Eu não conseguia me mexer.
Ouvi gritos - do pai, da mãe, da vó.
O sangue voltou a me correr nas veias. Atravessei a cozinha
voando. Na área de serviço, a cena era um
pesadelo em andamento.
Paula estava dentro de nossa casa.
Pior: estava na área de serviço.
Muito pior: tinha Fúlvio apertado na concha das mãos.
Mais amarelo do que nunca, meu pintinho piava em pânico,
os dedos assassinos pressionando a compleição
delicada de bebê. Quis avançar, a vó
me deteve pelo ombro e disse algum grosso impropério,
as veias do pescoço infladas. Hortênsia era
o quadro do desespero: batendo as asas, arremetia contra
as pernas da menina, que, aos chutes com a ponta do sapatinho
de verniz, achava jeito de se defender. Minha mãe
colheu a galinha entre os braços, numa estratégia
de defesa. O pai, em reação enérgica,
avançou e sacudiu Paula pelos ombros, aos gritos
de larga, larga, larga. Os cachinhos e fitas e babados agitavam-se
com os safanões. O rosto, entretanto, tinha a frieza
de quem nasceu com o instinto dos maus:
- Não largo o pinto coisa nenhuma. O senhor está
me machucando. Vou contar para meu pai.
- Pois conte para quem quiser. Se você não
largar esse pinto agora, daí sim que vai aprender
o que é uma surra - e dizendo isso, o pai ergueu
a menina do chão.
Os sapatinhos de verniz ficaram balançando no ar.
Ela desatou num berreiro, coisa que lhe garantiu a liberdade.
O pinto, sumidinho entre os dedos da infeliz, piava cada
vez mais fraco, de cortar o coração. A vó
falou algo entredentes e me libertou. Antes que eu avançasse
em direção à desgranida, aconteceu:
vinda do nada, de lugar nenhum, a vassoura de piaçava
com que se varria o chão zuniu no ar e se estatelou
em plaft nas costas da menina. Paula gemeu e imediatamente
curvou-se. Fúlvio espremido na mão que se
levantava para a defesa. Todos estacamos, aparvalhados diante
da cena: segurando a vassoura, a vó tinha os olhos
cintilantes de ódio, as veias do pescoço inundadas
de fúria mosaica - Paula tinha virado um cossaco.
Num arranque de instinto, a vó ergueu o cabo acima
da própria cabeça, pronunciando uma enorme
sentença em iídiche, e, cuspindo aos pés
da menina, voltou a golpeá-la com vitalidade.
E outra vez golpeou, e outra, e Paula, obedecendo àquele
impulso com que os ruins já nascem, esquivava-se
a correr de um lado a outro com o pinto entre as mãos,
provocando um rebuliço nos jornais que forravam o
piso. A vó, também obedecendo a velhas tradições,
ganhava uma energia nunca vista e perseguia a menina brandindo
a arma de pau e piaçava. O pai tentou contê-la,
mas ela, num urro, desceu uma tremenda vassourada no genro,
violência que lhe atirou os óculos longe. Protegendo-se
com o antebraço, o pai pôs-se de quatro a procurar
a armação que caíra perto do ninho,
justamente onde minha Suzi ficara descansando.
E a vó, em sua lei de talião - a vassoura
era agora um sabre -, continuou em golpes e golpes, e a
mãe recuou com Hortênsia nos braços,
e cada plaft que ouvíamos era uma insurreição,
um ato de rebeldia, uma vontade crua de vingança,
o ódio cintilando no miolo dos olhos azuis. A vó
tinha, finalmente, mãos de punir, coração
sem nenhuma ternura, e dá-lhe a sarrafear a menina
- que, imune à dor de tanta ruindade, já tinha
os cachos desgrenhados e os sapatos e carpins sujos de cocô
de galinha. E que, acuada contra a parede, os dedos completamente
fechados em torno do corpinho de nosso mimoso, pronunciou,
íntima do diabo:
- Não adianta bater em mim. O pinto está morto.
A vó parou.
O pai parou.
O mundo parou.
A menina abriu os dedos, e o corpinho molenga foi parar
no monte de jornais amarfanhados. A bandida riu - um riso
que foi cortado por uma bofetada do pai. Paula começou
um berreiro e correu porta afora, gritando e gritando.
Quanto a nós, fizemos um círculo em torno
do defunto nascido de clara e gema, o silêncio de
quando um anjo passa. O pai pronunciou nossa profissão
de fé, o Shemá Israel. A mãe, protegendo
Hortênsia, correu aos prantos para a cozinha. Que
ela não visse o filho morto.
Em mim, voltava a desatar-se uma hemorragia de raiva e dor.
Peguei minha Suzi, apertando-a entre os braços: chorava.
O luto se instalara de novo em nossa casa. Aos soluços,
perguntei a meu pai por que aquilo tinha acontecido. Ele,
cobrindo o finado com o lenço de cambraia que levava
sempre no bolso da calça, me ensinou:
- Às vezes não existe por quê.
Daí me abraçou bem forte. Foi a primeira vez
na vida em que vi o pai chorar.
Hortênsia continuou a viver conosco e, apesar de todo
o conforto que lhe dávamos, o olhar era constantemente
aterrado, uma expressão de ser que tem o susto nas
entranhas. Morreu velhinha, velhinha, na mesma cesta de
palha na qual chocou o único filho. A carne de ave
- qualquer ave - foi banida de nossa casa, por respeito
à doce memória.
Quanto a mim, casei-me com um músico judeu de sobrenome
Stern, como o violinista. Temos uma única filha,
Flávia. Hoje, minha pequena voltou do colégio
com uma novidade: trazia um pintinho, conseguido sabe-se
lá onde, uma graça. Recebi os dois, na resignação
materna: um eu mandei para o banho, outro pus numa caixinha
forrada com jornal. Coisas passadas voltaram.
Na hora da janta, apesar da contrariedade do meu marido,
o pintinho foi colocado para nos fazer companhia. Contei
a Flávia que eu também tive um pintinho quando
era criança e que ele havia sido morto por uma menina
muito má. Minha filha, apavorada, quis saber:
- Por quê?
Olhei o pinto: parecia-se à gema que havia sido,
trêmulo de infância. Olhei meu marido, olhei
minha filha: eles esperavam a resposta que ia salvar a família
e a humanidade.
- Sei lá - quis ganhar tempo.
E já ia falar algo sobre pogroms, holocaustos e pescoços
quebrados, quando fui interrompida por um longo - tão
longo - piar do pinto.
O adorado estava resplandecente em sua sabedoria amarela.
Para Rosa Soirefman e Rosa Moscovich, avós
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