O tempo e a memória
Para Modesto Carone
Poderia ter seus sessenta, no máximo sessenta e cinco
anos. Beleza, não; ao menos não se diz de
um homem daquela idade que é bonito.
Demonstrava, no entanto, a altivez de quem ocupa uma posição.
Não era alto, mas o corpo tinha contornos de firmeza.
Os óculos de hastes finas eram um halo a emoldurar
os olhos cinzentos; os cabelos, raros; a testa alteada como
a de um fidalgo. O vinco entre as sobrancelhas tornava-se
um exaspero sobre o peso do rosto.
Ao abrir a porta, sorriu apenas educado, e o sorriso cavou
com nítida precisão a ruga acima do nariz.
Eu quis saber se ele era o professor Augusto e se tinha
lembrança de que eu telefonara no dia anterior. Disse
que sim e cumprimentou-me com dedos enérgicos. Num
gesto cordial, convidou-me a entrar. Cedeu passagem recuando
o corpo, e senti que me observava. Por vaidade, contraí
as nádegas e alteei o queixo. Por vaidade. Foi assim
que penetrei naquele lugar, com o coração
ainda escuro - ainda sem nódoa.
O gabinete era amplo, e prateleiras repletas de livros enchiam
o ambiente. Numa parede sobre a qual se aplicara papel de
um bordô muito profundo, dominava essa pintura a óleo,
de cores bastante tênues: uma mulher, jovem, trazendo
ao peito um colar de pérolas. Senti que o homem ainda
me observava. E, orgulhosa de juventude, ainda mais contraí
as nádegas, fingindo observar o retrato.
Ofereceu-me a cadeira em frente à escrivaninha -
grossos cadernos de espiral empilhavam-se a um canto, ao
lado do telefone - baquelite, uma raridade - e do abajur
de opaline. Deu volta e tomou assento naquele que era seu
lugar; escorou os antebraços sobre a mesa, entrelaçando
os dedos. Muito bem, ele disse, e então?
Um jornalista escreve para o esquecimento, enquanto desejaria
escrever para a memória e para o tempo. Mesmo assim,
tirei da bolsa o gravador, caneta e bloco de notas. Fiz
menção de ligar o aparelho, mas ele estendeu
o braço, detendo-me com a mão espalmada:
- Gravadores deixam-me com voz metálica. Além
do mais, sei que a senhora não vai publicar nem metade
do que vou dizer.
Jornalistas editam e cortam; jornalistas são sempre
infiéis. Como, então, eu pedia que confiasse
em mim? Recolhi meu equipamento, pressurosa e um pouco envergonhada.
Ele empurrou as costas contra a cadeira: a vitória
aliviava a concentração do rosto. Engoli o
desconcerto e, alisando o papel em que rabiscara algumas
notas, busquei aplicar-me à entrevista: ele era especialista
em filologia, mas se dedicava, havia alguns anos, à
tradução de Borges, uma das melhores, segundo
diziam. Fiz a primeira pergunta.
Professor Augusto pendeu o tronco para a frente, cedendo
o movimento quando estava suficientemente apoiado no braço
da cadeira. Colocara-se muito próximo de mim - uma
intimidade. Olhou-me:
- Por que eu traduzo Borges? Ora, porque não consigo
escrever como Borges, senhora.
Talvez se tratasse de uma frase de efeito, talvez ele quisesse
me confundir. Eu ainda não compreendia como a fala
e as intenções se podiam modular do claro
ao escuro; tudo o que existia naquela época era o
preto no branco, coisas que se percebessem no brilho da
nitidez. Para uma repórter ansiosa de coisas que
se concretizassem, aquela era, em definitivo, uma retórica
injusta, que eu escutei exatamente assim: como se não
a merecesse. Anotei tonta e literalmente a afirmativa. Pedi,
mentindo sobriedade, que continuasse.
- Tenho pensado que Borges não precisa que o traduzam.
Melhor ler Borges no original. A senhora já leu Borges
em castelhano?
A primazia das perguntas era minha, pretendi avisá-lo.
Na realidade, alguns anos antes, a passeio em Buenos Aires,
comprara um antigo exemplar de Ficciones numa das livrarias
da calle Corrientes, volume que trouxe com o ânimo
de quem porta um souvenir de viagem. Lembro, ainda hoje,
de ter lido a brochura com dificuldade, um castelhano árduo
mesmo para quem nasceu em terras sulinas do Brasil. Por
isso, pelo penoso da experiência, naquela hora não
consenti em dar a ele as miudezas de minha pequena história
- muito menos me animei à confissão do quanto
me custara a visita ao Ficciones. Tornei-me, de repente,
cansada, de repente exausta, sem vontade de estar na frente
daquele senhor, que me arrostava, os olhos cor de ardósia
muito intensos.
Abreviei a entrevista: que diferença fazia eu ter
lido ou não Borges no original?
Toda a diferença do mundo, retrucou, não sem
certo amuo, dirigindo a atenção para algum
ponto às minhas costas. Dei volta com o corpo, curiosa.
Nós, os dois, agora, olhávamos para a mulher
no retrato. O papel de parede, no fundo do qual frutos e
pássaros entrelaçavam-se, começava
a despegar à altura do encontro com a moldura de
gesso que servia de contorno ao teto. Os dentes da mulher
eram nacarados e pareciam repetir o brilho das pérolas.
Voltei a encará-lo. Pegou uma caneta onde o dourado
se amortecera pelo tempo. Repetiu a mesmíssima pergunta:
a senhora leu Borges no original?
Respondi, finalmente, que sim. Seu rosto se iluminou, como
quem encontra um seu igual. E desandou a falar, Borges e
seus símbolos, Borges e sua erudição,
Borges e seu Sul, Borges e sua melancolia, a fidelidade
do tradutor ao original de partida, o conhecimento da língua
de chegada, as equivalências possíveis entre
espanhol e português - tudo numa velocidade que a
minha tonta mão se negava a acompanhar, o papel impermeável
àquele jorro repentino. Consegui retardá-lo
duas ou três vezes, nunca o suficiente. Ele continuava,
a caneta orquestrando uma sinfonia de instrumentos loucos,
da qual me sentia excluída - não parecia fazer
a mínima diferença eu ter lido Borges no original.
Até que o telefone tocou. Ele se interrompeu, a respiração
poderosa. Levantou o fone do gancho, agastado. Ouviu com
repentina atenção, fazendo um movimento afirmativo
com a cabeça, a ruga arando a pele num sulco trágico.
Ao cabo de poucos segundos, disse que já estava indo,
saio agora mesmo, não se preocupe, não vai
ser nada, querida.
Querida. Então havia no mundo alguém que aquele
homem queria, alguém que o esperava em algum lugar
- onde? Depôs a caneta sobre a pilha de cadernos,
alinhando-a com o capricho de quem arranja um antigo documento.
Pôs-se de pé, sentia muito, mas tinha de ir.
Juntei minhas poucas coisas, apalermada de susto. Levou-me
até a porta:
- Volte, por favor, amanhã, às duas da tarde.
- Colheu do cabide atrás da porta um cachecol vermelho,
que enrodilhou ao pescoço, e um grosso sobretudo
de lã, que vestiu com destreza: - Não gosto
de entrevistas por telefone.
Descemos os dois degraus que separavam a porta da calçada.
A tarde já ia em seu fim, e o céu se anuviava
frio de cinza. Uni as abas da gola e ajeitei melhor a bolsa
sobre o ombro. Estendi-lhe a mão. Sua pele estava
gelada. Fez sinal para um táxi, que se deteve logo
adiante. Antes de embarcar, supôs que eu merecesse
uma justificativa:
- É meu netinho, um corte na testa. Não deve
ser nada, mas minha filha está muito nervosa. Sabe
como é.
Não, eu não sabia. Dali a alguns anos, eu
teria filhos, mas ainda faltava em mim um laço para
que eu entendesse todas as formas de afeto e seus desesperos.
O táxi partiu. Decidi caminhar até a redação.
Uma nódoa ameaçava dentro. Apertei o passo,
impressionada.
Naquela noite, jantei duas fatias de pão com manteiga.
Resolvi ir para a cama antes da hora de costume. Depois
de escovar os dentes, fui até a estante de livros.
Como se fosse por primeira vez, dei de mão no volume
de Ficciones. Luz de cabeceira acesa, tapada até
o pescoço, comecei a penosa releitura. À altura
da estranha história de Juan Dahlmann e seu profundo
sentimento argentino, meus olhos já pesavam. Antes
de chegar ao desfecho, o livro caiu dentro do silêncio
do quarto e se perdeu na voragem do sono. Em meus sonhos,
o bibliotecário que tinha em mãos o exemplar
das Mil e uma noites se altercava com um homem de feições
indiáticas.
No dia seguinte, cheguei cedo à redação.
Queria, na verdade, escrever a matéria sobre Borges,
antecipar-me ao prazo das rotativas. Meu editor perguntou
sobre a entrevista. Menti, sendo imprecisa. Ele disse que
precisava de fotos do professor Augusto, não havia
nenhuma no arquivo, e pediu que escrevesse o obituário
de um escritor local, que estava à morte. Concordei,
com a alma densa.
O telefone tocou pelas dez. Atendi. E escutei:
- Sou eu, Augusto.
Veio algo como aflição, que também
poderia ser surpresa e que - pensando bem - poderia ser
alegria. A voz ao telefone soava faceira e doce, e era como
se não correspondesse ao corpo de alguma idade e
à índole brusca que demonstrara. Busquei,
na papelada sobre minha mesa, o bloco de anotações.
Ele me interrompeu:
- A senhora está ocupada agora?
Falei-lhe do obituário. O professor espantou-se,
conhecia o autor e lamentava a gravidade dos fatos. Decidiu
punir-me, mais uma vez: pensava que o necrológio
deveria ser somente feito quando o escritor morresse. Não
tinha resposta e fiquei em silêncio. Ele me fustigou:
- Assim são as coisas, senhora. As fúrias
se antecipam ao ato.
Tentando dar a mim mesma alguma dignidade, comentei que
era bela a frase. Ele retrucou, seco:
- A frase não é minha. É de Kafka.
Por favor, venha às quatro da tarde.
Antes que ele desligasse, avisei que levaria comigo um fotógrafo.
Ele foi quase ríspido:
- Senhora, uma das coisas que menos aprecio no mundo é
que me fotografem.
Desligou. Terminei o texto exatamente ao meio-dia. O escritor
faleceu perto da uma da tarde.
Pelas duas, começou a chover, água debatendo-se
furiosa contra as vidraças. Meia hora antes do combinado,
pedi que o carro do jornal me levasse à casa do professor.
O motorista queixava-se da tormenta. Eu também queria
queixar-me. Mas de quê?
Toquei a campainha. Ele atendeu: uma vaga de calidez suavizava
a ruga entre os olhos. E, pela primeira vez, um homem daquela
idade era quase bonito.
Sentei, ainda confusa, no mesmo lugar do dia anterior. Perguntei
como estava o neto, se havia sido algo de grave. Ele riu
com gosto:
- Dois pontos no supercílio, nada demais - o tom
dele era o de amor sólido e severo. - Minha filha
se assusta com facilidade - e olhou por cima de meu ombro.
Alguma penumbra muda se instalou no meio de nós.
Tomei coragem e, numa vingança débil, informei
que o escritor havia morrido. Ele reagiu:
- Sim, já sei. E o necrológio está
pronto. - Inclinou um pouco a cabeça: - Talvez eu
tenha sido indelicado com a senhora. Sou velho, a morte
está ali ao lado - apontou com o queixo uma das prateleiras
de livros - mas ainda não somos amigos.
Voltei os olhos para as lombadas e perdi a ação.
Calar-me significava concordância com ambas as afirmativas:
a de que ele era velho e a de que a morte inspirava pouco
apreço. A morte era, sim, algo terrível, e
o quê mais era ele senão isso, um homem velho?
Nada pude falar. Sem que parecesse dar sentido ao meu mutismo,
sugeriu:
- Aceita um café?
Bem, era uma idéia. Apoiou as mãos na borda
da mesa e ergueu o corpo, não sem certa dificuldade.
Volto já, ele disse, cruzando por mim.
Observei-o: trajava de cinza, calça e pulôver
de lã, o cachecol vermelho em volta do pescoço.
Ele decerto sentiu que o olhava. Pelo menos, aprumou os
ombros ao cruzar pela porta do gabinete. Teria sido belo
anos antes.
Caminhei até o retrato. Abaixo da assinatura - indecifrável
- a data indicava que exatos trinta anos se haviam passado.
Examinei sua biblioteca, detendo-me numa antiga brochura
das Mil e uma noites, de Weil, que folheei com deferência;
as ilustrações não poderiam ser mais
encantadoras. À frente dos livros, quase à
beira da estante, algo que se assemelhava a um caleidoscópio
chamou-me a atenção. Levei o tubo ao olho,
e coloridos vidrinhos armaram-se simétricos, mas
nem por isso monótonos. Voltei à mesa de trabalho
e medi a pilha de cadernos. Um pecado não estava
proibido, e peguei uma das brochuras. O cheiro íntimo
de café já se desprendia da cozinha, mas sem
ainda ser suficiente para me espantar. Ao alto, no cabeçalho
da folha, lia-se "Ulrica". O texto vinha numa
caligrafia caprichada, de arranque impetuoso, que logo se
suavizava, escandindo-se ao longo da página com elegância.
Admirei-me: um trabalho bonito. Devolvi o caderno à
pilha e voltei à cadeira quando escutei o breve tilintar
de louças. Ele colocou a bandeja entre nós.
- Poderia ser seu pai, senhora - ele disse, acomodando-se.
A frase não resistia à lógica da circunstância.
Poderia mas não é, respondi, tentando acompanhar
a sinuosidade do raciocínio. Pedi que retirasse a
senhoria, melhor chamar-me pelo meu primeiro nome.
Retribuiu a gentileza na mesma moeda. Comentei que o tratamento
cerimonioso fazia com que houvesse uma espada entre as pessoas.
Ele incendiou o rosto num sorriso, comentando que aquela
poderia ser uma frase de Borges. Perguntou se podia servir
o café - a essa altura já me tratava pelo
primeiro nome. Aceitei.
As palavras que ele dizia portavam cada qual sua sombra,
isso era seguro. Mas havia coisas que me eram dadas, naquele
momento, compreender. E compreendi. O café que ele
serviu era um tanto de amor na louça delgada feito
casca de ovo. No meio do silêncio vagaroso, ocorreu-me
que o professor mudara de atitude da noite ao dia.
Simplesmente assim: ele havia buscado uma bandeja na cozinha
e a dispusera na escrivaninha que nos separava. Sem que
eu pedisse - sem que eu merecesse -, colocara, ao lado do
bule, quindins lisos e perfeitos.
E como me oferecesse sóis de gemas, a fome veio.
Levei o doce à boca, o ovo feito geléia, e
o açúcar suavizou meus lábios. Comemos,
sem que, por muito tempo, se escutasse uma só palavra:
no espaço entre nós, reinava alguma mútua
satisfação. O último ruído audível
foi o da colher chocando-se contra a louça.
Cada um de nós tomou duas xícaras de café.
Depois de passar o guardanapo de papel nos lábios
finos, perguntou se estava servida.
Agradeci, elogiando a refeição inesperada.
Retirou a bandeja da escrivaninha, depondo-a numa mesa lateral
- movimentava-se com elegância. Sentando-se, alisou
o cachecol. Varreu com a polpa do indicador alguns farelos
imaginários do tampo de madeira; estalou os nós
dos dedos e me ofereceu um pensativo semblante. Tive o pressentimento
de que ia me dizer algo e, antes que fizesse isso, indaguei
a respeito da tradução. Calmamente, repetiu
o que declarara, aos jorros, no dia anterior. Ouvi.
Para não deixar as mãos abandonadas, volta
e meia pousava-as na pilha de cadernos manuscritos, acarinhando-os.
Os olhos perscrutavam-me, avaliando, vez que outra, meu
colo, o que me inquietava um pouco ou talvez me envaidecesse.
A fala se tornara mais lenta, a dicção, perfeita:
uma récita que eu seguia com todos os sentidos. Em
determinado momento, tive a intenção de detê-lo,
de parar aquela espécie de amor que vinha no caudal
das palavras. As certezas ainda longe de mim, temi que estivesse
fazendo um cálculo torto - poderia ser somente bondade
o que me parecia ser um influxo de carinho. Eu não
tinha como saber.
Perguntei se realmente traduzia Borges porque não
podia escrever como Borges. Ele sorriu.
- Desisti da carreira quando me dei conta que conseguia
manejar bem dez frases curtas, mas que não conseguia
uma única frase longa que prestasse - e fez um gesto
com a mão, desprezando-se. - Você nunca quis
ser escritora?
Confessei que sim, queria, desde pequena, quando lera Lobato.
Lobato?, ele repetiu, animado. O sulco sobre a testa havia
praticamente sumido.
Aparou a cabeça nos nós dos dedos. E comentou:
- Ontem eu comecei a traduzir Ulrica. É uma história
de amor.
Lembrei-me, com algum receio, do caderno que havia aberto
quando ele estava na cozinha. A caligrafia caprichada, de
arranque impetuoso, fazendo volteios em torno do U inicial.
Ele ainda me oferecia os olhos aguados, como se fosse feliz.
Desviei o rosto, não sem embaraço, e, ao deter-me
na caderneta de anotações, senti uma pontada
de entusiasmo: do tanto que havíamos conversado,
tinha assunto suficiente para três matérias.
Olhei o relógio e uma onda de espanto veio, já
era tarde; comentei que tinha de ir. Ele acendeu o abajur
de opaline, alisou outra vez a pilha de cadernos e tomou
nas mãos a caneta dourada:
- Pois bem, mocinha. O milagre tem o direito de impor condições.
Creio que, por juventude, ainda não sabia ficar calada.
Só depois, descobri a imobilidade que, aliada ao
silêncio, me traria a vantagem da dúvida. Disse,
então, como uma tola, aquela que eu realmente era,
que não havia entendido. Ele respondeu que não
tinha a menor importância.
Foi comigo até a porta e ajudou-me com o casaco e
com a bolsa, ajeitando o cachecol junto a meu pescoço.
Perguntou se eu iria até a redação.
Falei que já era hora de voltar para casa e que gostava
de caminhar sozinha. Sem abrir a porta, ele disse:
- Eu também. Podemos caminhar juntos um dia desses.
Rimos os dois. Parados, de frente um para o outro, ríamos
juntos, e eu temi que fosse feliz na hora errada. Num gesto
imprevisto colocou-me as mãos sobre os ombros. Estaquei:
uma mulher se depara como mulher frente a um homem poucas
vezes no espaço de uma vida. Atendendo a algum impulso
subterrâneo, abracei-lhe o corpo. Ele suspendeu a
respiração. Para uma mocinha, e para um senhor,
para nós dois, o contato físico era um dom
inesperado. Ele retribuiu o abraço com muita força
e encostou, como se fosse permitido, o rosto ao meu. Conheci
a pele escanhoada. Era macia.
- Sou viúvo - ele disse. - Não costumo ter
nos braços outras pessoas que não minha filha
e meu neto.
O diálogo se tornara difícil, como o de duas
criaturas que não podem se enganar. Saí com
dó daquele laço; sem encará-lo, confidenciei
que estava triste por ter acabado a entrevista.
- Ora, mocinha. Amanhã o sol vai brilhar em seus
dentes.
A frase tinha lá sua pompa; fazia parecer que o afeto
era fácil. Ele abriu a porta e aspirou o ar gelado.
Estiara. Hesitou um breve momento antes de perguntar.
- Você quer vir amanhã?
Eu me confundi. Depois de alguns momentos, em que tentei
avaliar a pergunta, fiz que sim com a cabeça. Ele
disse que me esperaria. E mais:
- A vocação dos velhos é esperar.
Quis saber se, de fato, ele se sentia velho. Negou, meneando
a cabeça com certo orgulho.
Ganhei a calçada. A porta fechou-se delicadamente
às minhas costas.
Eu, úmida, parada no meio de uma rua transversal
da cidade, sentia-me o avesso de uma menina. Meu rosto,
onde a pele do professor se juntara à minha, era
puro resplendor. Estava toda sensibilidade, algo que me
incomodava sem doer, feito uma unha quebrada. Era uma alegria,
que apesar de ser alegria, pesava: carga tão difícil
de ser eu mesma daquele jeito insolente. Um calor me vinha
de dentro do corpo, do tempo em que batia o coração,
mas que também era marcado pelos passos que percutiam
na calçada. Enfrentava o vento frio, como se houvesse
chegado a algum extremo. Cada coisa já tinha sua
sombra. Uma delas se instalara em mim e, ao menos por aquele
momento, eu achava que era uma bênção.
Porque são abençoadas, as pessoas continuam
a viver.
Naquela noite, mais uma vez, pouco comi. Deitada, mantive
os olhos abertos, numa tentativa de contar a mim mesma meu
dia. Nas trevas do quarto, o rosto do professor surgiu,
as hastes dos óculos pura iluminação.
Nos meus sonhos, ele se defrontava com o homem de feições
indiáticas.
Bem cedo, pulei da cama. Antes de bater a porta de casa,
apanhei o volume de Ficciones e carreguei-o junto ao peito.
Bastante antes do meu horário de costume, estava
na redação. Escrevi e escrevi, horas inteiras.
Borges nunca me pareceu tão claro e tão próximo.
Era uma intimidade recente, bem certo, mas havia laços
que me autorizavam. Meu editor veio pedir-me outro obituário.
Polidamente, recusei, alegando que as fúrias não
deviam se antecipar ao ato. Ele estranhou.
Por volta de cinco da tarde, a matéria estava pronta.
Pedi ao arquivo fotografias de Borges. Escolhi uma bastante
antiga, em que se notava o trabalho do tempo. Ao final da
edição, dando o artigo por concluído,
conheci o medo de ficar sozinha.
Cheguei à casa do professor pelas sete da noite.
O volume de Ficciones agarrado junto aos seios. Toquei a
campainha. Ele abriu a porta: recebeu-me sem surpresa. Meu
coração trocou o tempo em que batia, e eu
acolhi, enfim, como quem aprende, a nódoa.
O rosto de um homem daquela idade era finalmente bonito.
Porto Alegre, outubro de 2002.
<<
voltar